sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Crítica: Thomas Crown – Arte do Crime | Um Filme de John McTierman (1999)


Thomas Crown (Pierce Brosnan) é um homem acima de qualquer suspeita. Bilionário, não há nada que ele não possa comprar. Mas quando uma pintura do artista impressionista francês Monet avaliada em 100 milhões de dólares é roubada do Metropolitan Museum of Art em Nova York, seu nome figura como um dos principais suspeitos aos olhos de uma investigadora particular, Catherine Banning (Rene Russo), contratada para reaver a obra de arte e que duvida plenamente da integridade do charmoso ricaço. “Thomas Crown – Arte do Crime” (The Thomas Crown Affair, 1999) é uma refilmagem de “Crown O Magnifico”, que Norman Jewison dirigiu em 1968, tendo Steve McQueen e Faye Dunaway como protagonistas. Aqui nessa produção, John McTierman entrega os papéis principais aos talentosos atores, Pierce Brosnan e Rene Russo; e realiza um longa que mesmo sem a audácia de outros filmes realizados por ele (leia-se Duro de Matar e O Predador) tem um ritmo elegante e um glamour típico do cinema europeu que conferem a esse remake um charme todo especial. John McTierman teve uma carreira oscilante ao longo dos anos, com imensuráveis sucessos e derradeiros fracassos (leia-se O 13° Guerreiro, que foi boicotado na época pela produtora Disney que achou o filme muito violento e descaracterizou por completo o resultado para evitar incômodos com a censura) e nos últimos anos tem estado afastado dos holofotes.


Com um roteiro de Leslie Dixon e Kurt Wimmer, baseado na história de Alan Trustman, John McTierman cria um filme policial suave aparado pelas interpretações do elenco principal. Responsabilidade delegada com precisão. Pierce Brosnan em alta nos tempos onde protagonizava a cinessérie 007, a atriz Rene Russo faz um par romântico genial com o ator, onde o diretor consegue extrair da dupla uma excelente química. Inclusive o ator Denis Leary, frequentemente desinteressante cumpre o seu papel com habilidade. Com locações mais que escolhidas a dedo, a produção luxuosa e a trama repleta de reviravoltas, completamente desprovida de explosões e violência, fazem dessa produção um programa descompromissado e divertido que agrada sem fazer força. Com bons diálogos e uma trama inteligente e ajustada para transparecer elegância (a troca do assalto a banco do original feito com uso de armas por um roubo a uma obra de arte sem armas mostra isso), onde que a melhor parte se passa em seu desfecho ao som da canção “Sinnerman”, de Nina Simone, sob uma condução magistral que ainda homenageia o trabalho de outro pintor, esse belga e surrealista, René Magritte, usando uma versão de suas mais famosas obras (Filho do Homem). “Thomas Crown – Arte do Crime” é um bom filme, longe de ser memorável, mas que é merecedor (ainda que se trate de uma refilmagem) de ser eventualmente mencionado com carinho.

Nota: 7/10
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Alerta: Se você ainda não assistiu ao filme evite esse vídeo porque ele contem spoilers. Para os demais serve para matar a saudades que a diva confere a sequência final de longa. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Crítica: O Conselheiro do Crime | Um Filme de Ridley Scott (2013)


Um proeminente advogado (Michael Fassbender) toma uma arriscada decisão ao se envolver no submundo do tráfico de drogas. Como lhe foi avisado, uma simples visita através desse mundo não é algo que a maioria dos homens podem fazer sem dor e violência. Embora consciente dos riscos, sua ambição o cega diante da oportunidade dos ganhos que esse negócio pode lhe proporcionar, além da vontade de apoiar sua belíssima noiva, Laura (Penélope Cruz) a quem está acostumado a impressionar com luxo e presentes caros. Alertado sobre os vários aspectos desse negócio pelo extravagante Reiner (Javier Bardem), obcecado por sua companheira (Cameron Diaz) e pelo pragmático Westray (Brad Pitt), um homem livre de amarras com o mundo, o advogado se sente seguro o bastante para ingressar nesse perigoso jogo que presume conhecer bem as regras. Porém quando o curso das coisas foge do controle, e os cartéis Mexicanos com quem ele negociava passam a caçá-lo, como aos seus sócios empreendedores, o mal que jamais imaginaria que iria tocá-lo simplesmente o golpeia violentamente sem perdoar ninguém. Embora “O Conselheiro do Crime” (The Counselor, 2013) ter sido dirigido pelo experiente cineasta Ridley Scott (Prometheus, 2012), num trabalho conjunto com um dos maiores escritores americanos da atualidade ainda vivo, Cormac McCarthy (vencedor do Prêmio Pulitzer), o único motivo válido para conferir esse filme de crime e suspense é a composição do elenco principal que facilmente daria inveja a qualquer cineasta. Já que de resto, essa produção é marcada de desconfiança por parte do espectador, que em desacordo com a estética adotada, reage com estranheza diante do resultado incomum desse filme, mesmo que competente.

Sendo o primeiro esforço de Cormac McCarthy em escrever um roteiro original, sabendo que filmes como o impactante “Onde os Fracos não Têm Vez” e o envolvente “A Estrada” apenas foram baseados em seus romances, McCarthy canaliza suas forças na criação de uma trama que herde suas qualidades literárias. Repleto de diálogos filosóficos de gramatica intelectualizada apresentados em forma de extensos monólogos, e situações carregadas de excentricidade e menções de erotismo fetichista, o trabalho de McCarthy é favorecido pela entrega do talentoso elenco a proposta idealizada por seu arquiteto. Com a trama resolvida, sem um começo, meio e fim bem delineado, entra Ridley Scott, materializando um filme que lembra “O Homem da Máfia”, e que por sinal, também tem Brad Pitt em seu elenco principal. Mas Ridley Scott entrega um filme acima de comparações considerando seus trabalhos mais recentes, algo positivo vendo que alguns diretores ícones têm cada vez mais entregado filmes bem inferiores aos tempos das vacas gordas. Oliver Stone, com seu “Selvagens” (2012) é uma exemplificação evidente disso. Apesar de ter cara de um piloto de luxo para televisão, “O Conselheiro do Crime” tem o seu valor, e muito disso por causa do carisma dos atores envolvidos sobre o grande público, fazendo valer a elitizada escalação que confere certo magnetismo aos inúmeros diálogos inebriantes e cenas marcadas de simbolismos sobre questões mais profundas do que a própria vida. Boas sacadas narrativas são lançadas ao longo do desenvolvimento, como o fechamento ajustado onde certas citações ganham contornos de ação, ora chocantemente violentas (como na aplicação real do bolito), ora sugestivas (como na entrega de um DVD onde a dedução do conteúdo visual que o CD comporta fica a cargo da imaginação do espectador).
  
Entre deficiências e congratulations, “O Conselheiro do Crime” é uma experiência camuflada de filme. Se no passado Ridley Scott teve um reconhecimento mais tardio sobre “Blade Runner” (1982), uma realização ignorada no imediato lançamento, mas que com o tempo obteve maior atenção até virar uma obra de culto e ganhar o status de clássico, talvez seja possível, apesar de improvável, que “O Conselheiro do Crime” seja revisitado no futuro e visto pelo menos com mais carinho. E muito do que determinará isso, não será tanto o rumo da carreira de Scott daqui para adiante (trata-se de um cineasta consagrado acima de suspeitas independente de quantos mais fracassos ou filmes menores ele possa acumular), mas sim a de Cormac, já que ele passa a ingressar diretamente no universo cinematográfico, ainda que com alguns vícios literários que não foram muito bem vistos pela maioria dos espectadores.

Nota:  7/10
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Crítica: Clube de Compras Dallas | Um Filme de Jean-Mac Vallée (2013)


Quando nos anos 80 os portadores do HIV eram clinicamente diagnosticados como soropositivos, a doença, a AIDS era teoricamente restrita a grupos de risco (a homossexuais e usuários de drogas). Mas poucos anos antes da divulgação maciça das mudanças desse quadro, que mudou rapidamente virando uma espécie de pandemia global sem precedentes, essa doença ainda habitava no imaginário do homem comum americano sendo como uma desgraça apenas restrita aos homossexuais. E quando, diante do avanço dos sintomas esse mesmo homem comum era confrontado com a confirmação de ser portador da doença, que também era encarada como uma sentença de morte certa, o choque emocional era inevitável. Primeiro vinha à revolta, carregada de porquês, e depois a vergonha de portar uma doença que era sinônimo de constrangimento em tempos onde o preconceito reinava absoluto sob a visão conservadora do Partido Republicano conduzido por Bush. Dali para adiante cada homem ou mulher escrevia a sua própria história... Baseado em fatos reais, “Clube de Compras Dallas” (Dallas Buyers Club, 2013) é um longa-metragem dramático no qual podemos acompanhar a trajetória de um desses homens, que aprendeu a viver com a doença, desenterrando uma força que nem ele mesmo imaginava ter para lutar pela sobrevivência e que desconstrói seus próprios preconceitos. Após a confirmação de ser portador da doença em meados dos anos 80, Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um cowboy odioso que convencido da ineficiência dos medicamentos que tem sido usado nos portadores de HIV, ele busca incessantemente remédios alternativos para a cura. Com evidências dos males que a droga experimental, o AZT causa aos doentes, Ron Woodroof funda junto com o transexual Rayon (Jared Leto), o Clube de Compras Dallas que oferece (evidentemente mediante pagamento) remédios ilegais com melhores resultados. Agindo na clandestinidade, Ron bate de frente com o FDA (um órgão do governo responsável pelo controle sobre novos medicamentos), tendo um desafio maior do que sua própria doença: lutar contra corporativismo dominado pelos lobistas e órgãos reguladores ineficientes.

Com seis indicações ao Oscar, inclusive a de Melhor Filme, “Clube de Compras Dallas” é escrito por Craig Borten e Melissa Wallack. Dirigido por Jean-Marc Vallée (responsável por A Jovem Rainha Vitória) esse longa se mostra em suma um filme de atores e grandes atuações. Para começar com o protagonista, Ron Woodroof interpretado por Matthew McConaughey. Apresentado como um texano fracassado, machista, ignorante, homo fóbico, entre outras coisas, seu comportamento faz com que o espectador o considere sumariamente como um completo canalha. A certa altura do desenvolvimento da história, quando ele é golpeado com o diagnóstico de estar doente, sua reação diante da notícia de ter AIDS não sensibilizaria até o mais sensível dos humanos. Pelo contrário, geraria facilmente opiniões favoráveis ao seu diagnostico, supondo que o desaparecimento de um homem feito Ron Woodroof não acarretaria prejuízo algum à humanidade. Contudo o hábil roteiro que constrói situações interessantes bem conduzidas pela direção de Vallée possibilita, dando margem ao talento  de McConaughey para que o transforme de um modo incrivelmente orgânico em um sujeito envolvente e determinado diferente de como o conhecemos em sua estendida apresentação. E se McConaughey impressiona por sua atuação, como por sua caracterização física e comportamental, já que o ator emagreceu assustadoramente para compor um sujeito portador do vírus HIV, quase o deixando irreconhecível se comparado ao galã de antigas comédias românticas as quais protagonizava no passado; Jared Leto não fica a desejar em absolutamente em nada. Um exemplo disso está na doença que os consome, que ainda que seja a mesma, mas o modo como cada um lida com ela é de forma muito particular. Além do mais, nomes como o de Jennifer Garner, Denis O’Hare e Steve Zahn inserem na trajetória de Ron atuações que vão de convincentes a brilhantes, e que em muitos momentos conferem certa leveza e bom humor ao panorama dramático da obra.

Certamente que o trabalho de Jean-Marc Vallée também possui em sua composição algumas falhas, longe de serem gritantes, mas ainda presentes. Como a pretensão de manipular a atenção do espectador no tempo que decorre toda a ação, que se mostra confusa e desnecessária, além de algumas transições de tela enfatizadas como se fossem episódios de uma série televisiva. Sobretudo, nada que venha a oferecer uma ameaça que mereça atenção ao conjunto da obra que sensibiliza facilmente e desperta curiosidade pela tragédia de um sujeito que a primeira vista daria muito bem vontade de matar. “Clube de Compras Dallas” pode ser considerado uma criação única do talento do elenco, mais do que de apenas um realizador (já que suas deficiências se mostram possivelmente oriundas do lado detrás das câmeras). Merecedor das indicações voltadas ao elenco principal, essa luta que Ron Woodroof trava contra o sistema é uma experiência enriquecedora como relato da história e como ferramenta de inspiração.

Nota:  8,5/10
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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Crítica: O Grande Herói | Um Filme de Peter Berg (2013)


Uma unidade especial das Forças de Operações Especiais da Marinha dos Estados Unidos liderada por Marcus Luttrell (Mark Wahlberg), com o apoio de Michael Murphy (Taylor Kitsch), Danny Dietz (Emile Hirsch) e Matt ‘Axe’ Axelson (Ben Foster), são enviados para uma missão estratégica de reconhecimento sobre território Afegão. Feita uma aproximação bem sucedida com o esconderijo inimigo e a confirmação do paradeiro de um dos importantes líderes do Talibã, o grupo é surpreendido com uma inusitada surpresa nas montanhas entre a fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Não demora muito e os quatro Seals se vem lutando por suas vidas, encurralados, incapazes de pedir ajuda e em desvantagem numérica diante da ameaça inimiga. “O Grande Herói” (Lone Survivor, 2013) é uma homenagem bem pontuada aos homens que morreram em uma ação militar que fracassou em 2005. Baseado em fatos reais, essa produção tem como base a autobiografia de Marcus Luttrell (livro intituladoLone Survivor: The Eyewitness Account of Operation Redwing and the Lost Heroes of SEAL Team 10) lançado em 2007 que descreve os acontecimentos daquela trágica missão. Se a crítica e o público haviam se frustrado com o trabalho anterior do diretor/roteirista Peter Berg pelo resultado decepcionante de sua realização (Battleship – A Batalha dos Mares, 2012), em “O Grande Herói” o cineasta acerta em cheio ao se prestar a homenagear com doses maciças de realismo os feitos de coragem, o companheirismo e a determinação dos soldados mortos nesse combate sem glorificar a guerra em si.


Apesar do título nacional desinteressante, Peter Berg entrega uma grande realização com a mesma precisão dos homens que ele retrata. Pois existe uma clara pressão de criar um filme que atenda as expectativas comerciais, ao mesmo tempo em que não venha a manchar a memória dos combatentes. Sem mencionar a coragem do cineasta em mostrar em detalhes o desastroso resultado que fere o orgulho dos mais patriotas. E esse aspecto remete a lembrança de outro filme (Falcão Negro em Perigo, de Ridley Scott em 2002) onde seus combatentes passaram por uma via-crúcis para resgatar um helicóptero alvejado em plena guerra civil na Somália que ceifou muitas vidas de soldados americanos. Em “O Grande Herói” Berg prima pelo realismo, e com uma introdução real que demonstra o quanto difícil é fazer parte do Seal, complementada com trivialidades de um sincero companheirismo recheado de situações corriqueiras e diálogos bem humorados do elenco principal, o primeiro ato se fecha como planejado ainda que lento. Mas após apresentar os homens na forma humana, (através de imagens de sua vida e problemas comuns de homens casados) e não apenas sendo a elite do militarismo, Berg inicia com intensidade sua claustrofóbica retratação dos acontecimentos. Ao inserir recursos de som bem escolhidos, de maquiagem, de experientes e corajosos dublês, um ritmo incessante e um impecável realismo ao tiroteio, o cineasta joga seu elenco em trincheiras improvisadas na floresta, numa fuga dolorosa que transporta o espectador para ação. Com imagens fortes, cenas emocionantes (a explosão de um helicóptero de resgate é magistralmente conduzida) o elenco se destaca com interpretações mais do que convincentes e quase impecáveis, principalmente durante o dilema moral ao qual são sujeitados, apesar do fiapo de trama com que Berg tem que trabalhar.

Em resumo, “O Grande Herói” oferece muito com pouco. Surpreendentemente o contexto político é ignorado, como a estampa patriótica é escondida na maior parte do tempo prevalecendo critérios mais emocionais (a camaradagem e o companheirismo entre os soldados) para que o grupo continue perseverante diante da ameaça. Embora esteja dividido entre cumprir seu dever como produto de divertimento, e se mostrar uma obra envolvente e sincera com a memória daqueles que não resistiram ao desigual combate, Peter Berg equilibra bem ambos os propósitos sem danificar o conjunto.

Nota:  8/10
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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Crítica: Carrie – A Estranha | Um Filme de Kimberly Peirce (2013)


Em 1976, o cineasta Brian De Palma realizou um clássico do terror inspirado na obra de Stephen King. Mais de trinta e cinco anos depois, a diretora Kimberly Peirce (de Meninos Não Choram, de 1999 e Stop-Loss – A Lei da Guerra, de 2008) pega a consagrada história adequando-a aos novos tempos. E como todo realizador de um remake a diretora encontra várias dificuldades de reimaginar com alguma relevância a história em pleno século 21 de forma que justifique sua realização. Uma tarefa quase impossível, embora “Carrie – A Estranha” (Carrie, 2013) seja uma produção de suspense e terror que em tempos onde medidas contra bullying nas escolas tem ganhado grande destaque na mídia, e massacres em escolas tem habitado cada vez mais os noticiários, o enredo dessa produção tem a seu favor essa sutil conexão com uma realidade perturbadora. E a transposição da história feita por Kimberly Peirce, analisada por esse aspecto, até teria algo a dizer. A ideia original é antiga, mas de fácil encaixe aos tempos atuais. No entanto se em algum momento houve essa pretensão, seu trabalho se perdeu em alguma etapa do desenvolvimento, demonstrando que essa nova versão não tem nada para mostrar que ainda não tenha sido dito. Para começar pela história: Carrie (Chloë Grace Moretz) é uma garota reprimida pela educação de sua mãe, Margaret (Julianne Moore). Ainda que essa relação seja provida de uma espécie incomum de amor, ao mesmo tempo está constantemente assolada por complicações. Para piorar, Carrie que sofre de constantes ataques de bullying na escola de modo passivo, descobre ter poderes telecinéticos, que sobre as condições adequadas são capazes de ser letais.

Se Carrie – A Estranha” tinha boas intenções de apresentar as novas gerações uma versão melhorada do clássico, em quesitos técnicos certamente obteve um considerável sucesso. A aparência da película está indubitavelmente harmoniosa mostrando que as escolhas de profissionais de direção de arte e fotografia foram bem acertadas. Curiosamente a cena onde o sangue lava o corpo de Carrie por inteiro, a forma como foi aplicado segue o método utilizado no filme original mostrando que certas soluções do passado continuam sendo as mais funcionais. Porém, essa produção não se mostra um filme de terror ou de suspense que desperte emoções coerentes com o gênero do qual é oriundo mesmo com o constante tom sombrio adotado. E esse é um dos maiores problemas desse longa. Como também a questão da implementação do argumento, aqui escrito por Lawrence D. Cohen e Roberto Aguirre-Sacasacuja, que constroem as principais personagens (mãe e filha) de modo que soa demasiadamente artificial, mesmo tendo atrizes talentosas que se encaixam esteticamente nos seus papéis. Seguindo o leitorado do longa original em vários aspectos, resta ao espectador conhecedor dos percalços de Carrie esperar a chegada das cenas chaves que autenticam a vingança esperada. Dentre as tantas refilmagens realizadas todos os anos, o trabalho de Kimberly Peirce não é de todo mal apesar de algumas deficiências incômodas. Talvez soe mais ofensivo aos que conhecem a realização de Brian De Palma, ou até mesmo a versão televisionada. Contudo, Carrie – A Estranha” ainda pode ser uma experiencia válida (ao menos que seja adotada como temporária) ao público que desconhece sua origem. Pois essa sim, deve ser considerada imperdível. 

Nota:  6/10     
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Crítica: Rota de Fuga | Um Filme de Mikael Hafström (2013)


Rota de Fuga” (Escape Plan, 2013) pode ser visto de duas maneiras: pelo filme que é na verdade, ou pelo filme que poderia ser. Pelo que é, a parceria Stallone/Schwarzenegger não ganhou uma produção tão memorável quanto a dupla merecia. Se na franquia “Os Mercenários” onde os dois dividiam a tela em proporções desiguais com outros astros dos anos oitenta, isso já rendeu um caldo saboroso para sopa desenvolvida por Sylvester Stallone, aqui a ação gravita de modo desequilibrado se valendo somente pela presença dos astros. “Rota de Fuga” poderia ser bem melhor se não fosse tratado apenas como mais um filme de ação desgovernado como os que Sylvester Stallone costuma protagonizar (leia-se Alvo Duplo por exemplo). Em sua trama acompanhamos Ray Breslin (Sylvester Stallone) um especialista em escapar de prisões de segurança máxima. Suas dicas de melhoramentos para tornar as prisões à prova de fuga são consideradas a tabua dos dez mandamentos para tornar a segurança das prisões infalível. Após uma proposta lucrativa partida da iniciativa privada de testar uma nova prisão, Ray é encarcerado em uma prisão idealizada em seus próprios ensinamentos. Porém o que parecia apenas mais um trabalho comum de sua profissão se mostra uma armadilha para encerrar sua carreira. Jogado na cadeia sem perspectiva de soltura independente dele conseguir ou não sair da prisão por mérito próprio, ele traça uma parceria com um detento, Emil Rottmaier (Arnold Schwarzenegger), para juntos fugirem do que deveria ser a prisão perfeita.

Iniciado de modo projetado a ser perfeccionista, a trama apresenta Ray de maneira metódica ao mostrar toda sua habilidade que lhe conferiu sua fama. Metodologia necessária para um profissional de sua competência, porém de motivações artificiais e pouco convincentes. A amizade desenvolvida no interior da prisão com Rottmaier leva as telas os conhecidos atritos que os astros gostam de evidenciar como modo de fazer humor que muito se assemelha com que foi visto em “Os Mercenários”. Uma ideia batida entre muitas mais. Como filme de presídio, Mikael Hafström falha em criar algo novo desprovido de soluções fáceis ou mesmo fazer uma execução competente do que é visto como regra num bom filme do gênero. Há os personagens clichês como o maléfico diretor (Jim Caviezel), seu braço de ferro (Vinne Jones) e o elo de salvação dos protagonistas (Sam Neil) compondo uma pobre criação de personagens. Apesar de a narrativa iniciar de modo mais elaborado em sua premissa, até interessante por sinal, não demora muito para que o filme apenas se torne uma sucessiva sequência de correrias e revelações de pouco efeito que não geram tensão que se faça valer de verdade. O ambiente de confinação não auxilia na elaboração de uma ação visual mais ampla que exploraria melhor o potencial do timing. E é nessa correção que “Rota de Fuga” poderia se fazer mais expressivo. A improbabilidade da ação (principalmente em seu desfecho) torna desagradável a ideia de como seus responsáveis julgam que ainda funcionem tão antigas ideias. É difícil dizer se “Rota de Fuga” poderia ser algo mais do que realmente se tornou, mas é certo que ele seja capaz de desencadear do espectador um desejo de ver novamente a parceria dos astros em funcionamento.

Nota:  5,5/10
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Crítica: Jogos do Poder | Um Filme de Mike Nichols (2007)


É o inicio dos anos 80 e a União Soviética invade o Afeganistão. Atitude essa que chama a atenção de figuras influentes dos Estados Unidos da América, como de Charlie Wilson (Tom Hanks), um congressista mulherengo e de caráter duvidoso que ostenta 6 reeleições em sua trajetória política. Apoiado por Joanne Herring (Julia Roberts), uma das mulheres mais ricas do Estado do Texas, e pelo agente da CIA Gust Avrakotos (Phillip Seymour Hoffman), Wilson consegue sucesso numa tarefa bem difícil: fazer saltar o orçamento de ajuda aos rebeldes afegãos de 5 milhões amuais, para 1 bilhão de dólares. Com uma verba superior, Wilson passa a negociar uma aliança entre paquistaneses, egípcios, israelenses e o governo norte-americano para impedir a todo custo o avanço das tropas soviéticas sobre o território afegão. “Jogos de Poder” (Charlie Wilson´s War, 2007) é uma comédia dramática escrita por Aaron Sorkin baseado no livro de George Crile. Trata-se de uma produção relevante que trás alguns esclarecimentos interessantes em relação à atmosfera política permeada de tramoias e intenções ocultas que antecedem o 11 de setembro e a Guerra ao Terror.

Mesmo elogiado pela crítica especializada “Jogos de Poder” não fez o estardalhaço imaginado, tampouco obteve o sucesso de bilheteria pretendido. Apesar de bem realizado e com grandes nomes no elenco como Tom Hanks, Julia Roberts, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams entre outros atores de rostos bem conhecidos, o diretor Mike Nichols entrega um filme competente que aborda com habilidade parte da história que é uma peça fundamental nos eventos posteriores no cenário de conflitos que assolam o Oriente Médio hoje. Com atuações bem elaboradas e uma reconstituição de época fiel, Mike impõe um ritmo ágil e agradável a sua obra. Com diálogos inteligentes, cínicos e com um toque de humor acentuado, a trama aproveita bem o talento dos atores envolvidos e de seus personagens complexos. Há naturalmente a desagradável propaganda nacional que geralmente marcam filmes do gênero nascidos nos Estados Unidos, mas de modo sutil e complementar sem que atrapalhe a harmonia do conjunto. Com muitas indicações a prêmios em festivais (Phillip Seymour Hoffman concorreu aos Oscar de Melhor Ator Coadjuvante em 2008) o filme não obteve nenhuma consagração expressiva. “Jogos de Poder” é um filme para gente grande. Funciona melhor como entretenimento para um público mais maduro que julga desnecessário uma ação visual para contextualizar o clima de guerra que habita no enredo. Sobretudo, familiariza ricamente o espectador com os jogos de interesses ocultos dos bastidores de uma guerra que não se sabe mais quando vai acabar. Um ótimo filme pouco conhecido que merece ser descoberto.

Nota:  8/10
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Resenha: Afro Samurai: Ressurection | Uma Animação de Fuminori Kizaki (2008)


Afro Samurai é um personagem de mangá japonês criado por Takashi Okazaki em 1999 sobre a cruzada de vingança de um garotinho que testemunha a morte de seu pai em um duelo por uma lendária bandana. A busca pela bandana número e o desejo de vingança são o combustível motor do enredo dessa animação que se passa em um Japão Feudal futurístico pós-apocalíptico. Originalmente oriundo das revistas em quadrinhos, o personagem ganhou uma adaptação para anime dividida em 5 episódios dirigidos por Fuminori Kizaki que foram lançados em 2007 e foram um grande sucesso de audiência em emissoras de televisão paga pelo mundo. Sua sequência (Afro Samurai: Ressurection, 2008) é a confirmação do potencial do personagem e da elegância de sua estética. Como em sua origem, o material Fuminori Kizaki é direcionado ao público adulto, já que aborda temas maduros e se utiliza narrativa que transborda violência explicita, ainda que coreografada.

Em sua trama acompanhamos acontecimentos posteriores ao término da série televisionada, onde que quando criança, Afro testemunha a morte do pai por um pistoleiro chamado Justice (dublado por Ron Pearlman), que decepa a cabeça de seu pai e se apodera do poder e do status que a bandana número um confere. Mas a regra é a seguinte: o único guerreiro que pode desafiar o detentor da bandana número um é aquele que detêm a bandana número dois, ao mesmo tempo em que todos podem desafiar aquele que possui a bandana número dois. Com a bandana recuperada Afro já adulto é surpreendido por plano de vingança de antigos conhecidos. Sem a bandana número um, também tem que recuperar a cabeça de seu pai que foi desenterrada e roubada possa ter descanso da alma. Assim Afro parte em uma jornada de resgate, junto com seu amigo imaginário Ninja Ninja, que será banhada de muito sangue e dilacerações que destruirá qualquer resquício do Clã dos Sete Vazios e deixará um rastro de morte e mais vingança para trás.

Com o personagem título sendo dublado por ninguém menos do que Samuel L. Jackson, a animação ganha contornos surpreendentes. Mostra a reverencia do astro, e proporciona uma sonoridade instigante ao personagem. Além disso, a trilha sonora de responsabilidade de RZA acentua toda a ação do filme e enfatiza os momentos de dramaticidade que marcam essa produção com canções fantásticas de hip hop e new age bem antenadas com a proposta oferecida. Para quem aprecia animações japonesas direcionadas a um público mais maduro, avesso a censuras, “Afro Samurai: Ressurection” é um excelente programa de um anti-herói sem medidas. Esteticamente genial e violento, Afro não fala muito, mas mesmo tendo pouco a dizer e mostrando muita atitude, louvável ou não, a sua existência é grata.

Nota: 8/10
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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Crítica: Hancock | Um Filme de Peter Berg (2008)


John Hancock (Will Smith) é um desastre descontrolado na forma humana. Com os poderes e a indestrutibilidade de um super-herói, ele é capaz de voar, atravessar paredes, desviar de balas e tem uma força inimaginável, mas suas ações desajeitadas resultantes do consumo excessivo de álcool custam milhões aos cofres da cidade. Praticamente Hancock destrói tudo que toca desencadeando da população revolta onde é visto com desdém. Mas quando o destino dele cruza o caminho do Relações Públicas Ray Embrey (Jason Bateman) ele vê uma grata oportunidade de reabilitar a imagem desfigurada que as pessoas tem de Hancock. Mas sem imaginar, Ray tem uma surpreendente ligação muito mais complexa com a figura incompreendida de Hancock ao conhecer sua esposa Mary Embrey (Charlize Theron). “Hancock” (Hancock, 2008) é uma produção estadunidense de ação e comédia baseado no roteiro original de Vincent Ngo (e não de quadrinhos ou graphic novel nenhuma) que se livra das amarras dos tradicionais filmes de super-heróis. Estrelada por Will Smith e Charlize Theron, a direção ficou a cargo de Peter Berg. Depois de quase 10 anos cozinhando no inferno do desenvolvimento de um grande filme de estúdio, reescrito várias vezes e tendo algumas mudanças de direção em sua trajetória do papel a película, por fim o cineasta Peter Berg entrega uma produção interessante esteticamente, contudo mais competente do que envolvente.

Essa produção foi à primeira incursão de efeitos visuais grandiosos num filme do cineasta. Amparado por grandes nomes da indústria (Akiva Goldsman, Michael Mann e Will Smith) o cineasta obtém através dessa produção uma bem sucedida recepção. Com um faturamento positivo que atendeu as expectativas do estúdio responsável, muito pela presença carismática do astro Will Smith, Peter Berg apresenta um longa de proposta arriscada que até certo ponto convenceu sem questionamentos. Por outro lado, também tem suas deficiências como um típico filme de super-herói padrão. “Hancock” não se aprofunda nas origens do personagem com detalhes, não apresenta um vilão à altura do herói e estabelece uma relação excessivamente artificial entre o personagem título com o da Charlize Theron. Perdido entre a comédia e a ação adrenalinesca que Peter Berg tenta extrair dos recursos técnicos que lhe foram disponibilizados pela produção, sua falta de foco gera mais desgosto do que confere sabor ao filme. Embora haja grandes sacadas bem apresentadas, principalmente em volta do próprio Hancock, à trama em si e como ela se sucede não convence como deveria soando ligeiramente forçada para acomodar os grandes nomes do elenco.

Hancock” é brilhante por querer ser diferente. Um herói alcoólatra com amnésia e cheio de boas intenções, mas sem nenhuma noção de como coloca-las em prática. Em alguns momentos mesmo Hancock consegue ser único, embora a imagem de anti-herói vá se moldado aos poucos para o convencionalismo ao qual em premissa se negava a assumir. Se “Hancock” tivesse assumido uma posição mais hilariante teria sido melhor, ou pelo menos mais refrescante.

Nota: 6/10
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Crítica: R.I.P.D. - Agentes do Além | Um Filme de Robert Schwentke (2013)



R.I.P.D. - Agentes do Além” (RIPD, 2013) é uma produção de Sci-Fi e comédia que surge com uma mistura estragada de “Homens de Preto” com “Ghostbusters”. Constantemente mencionada pelos listeiros cinéfilos como um das piores lançamentos de 2013, o veredito é justificado devido ao desinteressante resultado, apesar de sua charmosa inspiração. Baseado nos quadrinhos de Peter M. Lenkov, Ryan Reynolds, uns dos protagonistas dessa produção segue os passos de Chris Evans (o ator que materializou o personagem Capitão América para o cinema após ter interpretado outros personagens sem sucesso). Reynolds que insistentemente busca encontrar o personagem dos quadrinhos definitivo para si, seguindo os passos de Evans, infelizmente não encontra o tão famigerado sucesso nessa produção. Embora a premissa surja interessante ao acompanharmos o policial Nick Walker (Ryan Reynolds), assassinado por seu parceiro, Bobby Hayes (Kevin Bacon) um homem que esconde uma identidade sobrenatural. Direto ao Paraiso, Nick Walker é designado para integrar o Departamento Descanse em Paz, onde que com seu parceiro, Roy Pulsipher (Jeff Bridges), ambos precisam prender entidades sobrenaturais contraventoras.

O que parecia uma boa ideia a princípio, se perdeu no desenvolvimento acomodado. Embora a premissa tenha seu charme, a realização está soterrada de falhas e deficiências gritantes. Com personagens excessivamente clichês, como o xerife interpretado por Jeff Bridges, que se torna realmente irritante não somente para seu parceiro, o filme não desperta carisma no espectador. Ao se mostrar pouco divertido como objeto de entretenimento fácil e ter uma produção onde os efeitos visuais recauchutados chegam a ser constrangedores, Robert Schwentke (responsável por filmes como “Plano de Voo” e “Red”) conduz essa produção de modo desconcertante. Sem ritmo e repleto de cenas de ação pouco, ou quase nada funcionais, há poucos atrativos em sua estrutura que faça o espectador ficar envolvido com sua proposta. Com mais 100 milhões em investimento nessa produção, fica difícil de imaginar onde esses recursos foram investidos. Por fim, R.I.P.D. - Agentes do Além” falha vergonhosamente em sua proposta ao ridicularizar ainda mais os nomes de seus envolvidos, desperdiçando um bom timing de astros como também vem a mostrar as evidentes limitações de seu realizador, que como em “RED 2” se mostrou inesperadamente limitado como objeto de entretenimento.

Nota:  4/10
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Velozes e Furiosos 7 | Um pôster fake que não tem do que se envergonhar

É fácil acreditar que esse cartaz poderia ser material oficial de divulgação do sétimo filme da franquia "Fast & Furious". O design elegante e engenhoso que aproveita as luzes traseiras dos automóveis numa aparente disputa de velocidade na criação do número "7" pode ser de longe um dos cartazes mais brilhantes ligados ao filme (adiado para 2015). Mesmo que não seja oficial, sendo apenas um fruto amadurecido da imaginação de um fã o cartaz impressiona  pela elegância acentuada da proposta e pelo profissionalismo empregado.


"Velozes e Furiosos 7" é dirigido por James Wan e escrito por Chris Morgan, que trazem no elenco e na trama surpresas desconhecidas (após a fatalidade ocorrida com Paul Walker houve o adiamento da produção para o ano que vem e pouco se sabe a respeito das mudanças adotadas para dar continuidade ao que já havia sido feito). Mas uma coisa é certa: esse cartaz ficou muito legal.