terça-feira, 12 de abril de 2016

Crítica: O Programa | Um Filme de Stephen Frears (2015)


O lançamento de um drama biográfico sobre a vida do ciclista norte-americano Lance Armstrong era um filme esperado com grande anseio em determinados círculos. Baseado no livro O Sete Pecados Capitais (Seven Deadly Sins: My Pursuit of Program) escrito por um jornalista do Sunday Times, o irlandês David Walsh, o jornalista acompanhou de perto a carreira do ciclista e escreveu várias matérias sobre o atleta ao longo dos anos desde quando o conheceu em 1993. Armstrong que ganhou fama e prestigio após vencer sete edições consecutivas do Tour de France entre 1999 a 2005, ao mesmo tempo em que virou uma espécie de garoto propaganda na luta contra o câncer após ter se curado de um (inclusive criando uma fundação de apoio a portadores de câncer chamada Livestrom), deixou o mundo boquiaberto quando veio com à inesperada revelação ocorrida em janeiro de 2013 com ele admitindo publicamente em um famoso programa de televisão de ter estado sob o efeito doping em suas vitórias. Após anos negando veemente, foi um inegável choque para o mundo que o acompanhava com admiração ou com alguma suspeita. Mas essa confissão era só o que faltava: Lance já havia sido banido do esporte pela União Internacional de Ciclismo em 2012 pelo uso de anabolizantes após uma intensa investigação focada nele em seus antigos companheiros de equipe. Só faltava uma confissão. Isso foi a queda definitiva de um herói. “O Programa” (The Program, 2015) é um filme britânico-francês adaptado por John Hodge e dirigido por Stephen Frears (responsável por filmes como “A Rainha” e “Philomena) que se mostra um rápido e interessante esclarecimento sobre umas das maiores lendas do ciclismo contemporâneo. Durante anos o atleta obteve destaque no mundo inteiro por suas conquistas dentro e fora do esporte, e acompanhar de forma compacta em um longa-metragem sobre sua meteórica ascensão no esporte e consequentemente sua queda é no mínimo uma experiência válida.


De herói a vilão, de exemplo de superação a mentiroso, “O Programa” retrata cronologicamente todas as grandes guinadas que Lance Armstrong se sujeitou ao longo de mais uma década. Entre fatos e liberdades criativas, a essência de sua trajetória se encontra no desenvolvimento desse longa-metragem. De mero figurante nas grandes competições a imbatível favorito, Lance tem sua vida dissecada para os olhos do público através da intepretação bem-sucedida do ator Ben Foster e da condução equilibrada de Stephen Frears. Mais do que sobre o ciclista, o trabalho de Stephen Frears é metodicamente focado no período no qual o atleta e sua equipe se utilizavam de meios ilícitos de ganho de desempenho. Frears não se censura em mostrar a rotina de doping usada pelos atletas. O uso de drogas como EPO, testosterona, cortisona conciliados com transfusões de sangue faziam parte do método de melhorias físicas adotadas por Lance e sua equipe de ciclismo que eram administradas por Michele Ferrari (interpretado por Guillaume Canet). Depois da confissão, o ciclismo é o aspecto menos relevante em volta da vida de Lance. Ironicamente a certa altura do filme, numa casual conversa em viagem entre os membros da equipe do atleta especula-se a possibilidade de no futuro ser feito um filme sobre ele (uma sacada do roteiro) onde nenhum dos colegas de equipe de Lance acerta com alguma precisão o verdadeiro foco do longa-metragem. O ciclismo é menor dos aspectos retratados no desenvolvimento da trama, e sim a má conduta desportiva do atleta que foi rotulada como o mais sofisticado esquema de doping já praticado em qualquer modalidade esportiva.

Mesclando cenas reais de arquivo com uma produção bem acabada, bem ao estilo de um thriller de suspense, “O Programa” confere um nível de realismo competente para o desenvolvimento da trama, seja nos aspectos visuais do filme ou nas interpretações bem entregues por parte do elenco (obviamente com destaque para Ben Foster). Embora não seja tão rico em informações e detalhes sobre os bastidores da conturbada trajetória do ciclista, e principalmente sobre o escândalo em volta de Lance Armstrong quanto o documentário “A Mentira de Armstrong” (2014); ou tão inspirado quanto outras cinebiografias lançadas nos últimos anos como “Selma” ou “Rede Social”, no final das contas, “O Programa” se mostra um filme competente e de resultado satisfatório. E um dos motivos ao qual não nos agradamos plenamente com o filme, talvez seja pelo fato de não conseguirmos aprovar a atitude ilícita que o protagonista toma e principalmente com sua personalidade pouco cativante fora do alcance dos holofotes.

Nota:  7/10
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2 comentários:

  1. A história de Armstrong é um verdadeiro drama cheio de reviravoltas. Ainda não assisti esta versão de Frears.

    Abraço

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    1. Embora tenha os momentos mais relevantes da vida do ciclista, carece de um pouco de genialidade. Poderia ser melhor, mas ainda assim tem as informações necessárias e aproveita bem o talento dramático do protagonista e principalmente sua entrega ao papel. Gostei do filme mesmo esperando mais dele.

      O documentário é uma boa forma de esmiuçar melhor sua vida.

      abraço

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