terça-feira, 30 de agosto de 2016

Cartaz Alternativo: Perdido em Marte by Edgar Ascensão


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Crítica: Esquadrão Suicida | Um Filme de David Ayer (2016)


A morte do Superman trouxe a vida uma grave necessidade. A ausência de uma força heroica que pudesse intervir aos mesmos interesses que o homem de aço atendeu durante um momento drástico da sobrevivência da humanidade. Assim o governo dos Estados Unidos toma uma atitude tanto inesperada quanto improvável: criar uma força tarefa excepcional composta com os piores criminosos do mundo para agir de acordo com os interesses do governo. E o teste de funcionalidade dessa ideia veio quando uma perigosa e misteriosa entidade do passado surge para destruir a humanidade, entram em cena esses estranhos heróis que não tem nada a perder para salvar o mundo. Mas ao mesmo tempo, isso levanta uma imprescindível questão: o quanto eles estão realmente interessados em salvar o mundo ao lado da lei e da ordem? “Esquadrão Suicida” (Suicide Squad, 2016) é uma aventura de fantasia estadunidense baseada no eclético grupo de anti-heróis homônimo da DC Comics que é adaptada para o cinema por David Ayer. Adaptação essa marcada de uma série de irregularidades, essa segunda maior aposta da DC para o ano de 2016 se mostra uma produção rasa, que desperdiça a irreverência dos seus personagens e deixa os inúmeros buracos da trama e a montagem delirante em contraste com uma campanha de marketing bem bolada.

Existe um sentimento de desapontamento latente em “Esquadrão Suicida”. E isso é quase unanime. Embora não seja tão ruim quanto à crítica especializada tem o rotulado nos meios de comunicação (como o maior desastre desse ano), ainda assim está bastante inferior ao que se esperava. Após vários burburinhos de bastidores envolvendo Jared Leto (que interpretou a nova cara do Coringa) e alguns trailers espetaculares, era de se esperar um melhor acertamento no desenvolvimento da trama e personagens. O filme causava a ligeira impressão de ser a combinação equilibrada de uma série de boas sacadas que foram adotadas em outros filmes da rival Marvel no passado. Tudo indicava que esse projeto seria a opção de entretenimento mais bem sucedida desse ano para fãs do gênero ou não. Mas infelizmente para o grande público, fã ou não dos personagens, não foi bem assim que aconteceu. Se “Batman vs Superman – A Origem da Justiça” (2016) dividiu opiniões, ainda que se mostrasse infinitamente superior ao filme do “Homem de Aço” (2013), o trabalho de David Ayer deixa a desejar em vários aspectos. Para começar pelo roteiro confuso, caótico, que banaliza ações e não empolga. Desprovido de objetividade, o roteiro aproveita pouco da potencialidade dos personagens e os lança numa bagunça de enredo que obviamente não detinha um foco preciso. O que consequentemente dificulta o trabalho do elenco, que tirando a presença de o Pistoleiro (interpretado por Will Smith) e Arlequina (interpretada por Margot Robbie), os demais não passam de meras excentricidades de conveniência. No final das contas, a exploração de personagens não é realmente satisfatória e por várias vezes desperdiçada. O que diga sobre o Coringa (interpretado por Jared Leto), que se comportou de forma mais interessante nos bastidores, numa possível estratégia de composição de personagem, do que em cena.

A trilha sonora de “Esquadrão Suicida” é brilhantemente escolhida, com várias canções empolgantes, mas que não se mesclam ao enredo com a devida funcionalidade é uma incógnita. A sonoridade é fantástica, mas excessiva a certa altura. O filme está repleto de efeitos visuais de grande vislumbre (algo em seu desfecho me fez lembrar o primeiro “Caça Fantasmas), embora o artificio não compense de modo algum as outras deficiências narrativas encontradas tanto na trama quanto na condução da ação realizada por David Ayer que não leva o espectador a um desfecho interessante. As boas sacadas de humor foram praticamente todas utilizadas nos trailers, não restando muitas outras surpresas para o filme em si. Na verdade, o melhor dessa produção se encontra realmente nos trailers. Quase tudo está lá, inclusive à expectativa dos espectadores que esperavam ver uma produção memorável.

Nota:  6/10
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sábado, 30 de julho de 2016

Crítica: Amantes Eternos | Um Filme de Jim Jarmusch (2013)

São poucos os filmes de vampiros que conferiram algo de realmente novo ao gênero nos últimos anos. Assim sendo, o cineasta norte-americano Jim Jarmusch, um criativo representante em atividade do cinema independente estadunidense, talvez seja o que melhor representou no passado mais recente alguma iniciativa com esse propósito. “Amantes Eternos” (Only Lovers Left Alive, 2013) é um drama romântico escrito e dirigido por Jim Jarmusch (responsável por “Flores Partidas”, de 2005 e “Homem Morto”, de 1995) lança um olhar originalmente singelo e profundo sobre o legado da eternidade que marca esses sanguinários personagens da cultura contemporânea. Em suma, trata-se de uma história de amor impressionante sobre dois personagens imortais. O cineasta se desarma de um punhado de clichês batidos (os mais adotados e igualmente cansativos) se reinventando e atribui um toque autoral sobre a longa relação amorosa de um casal de vampiros que atravessam os séculos dividindo suspiros e memórias. Em sua trama acompanhamos o vampiro Adam (Tom Hiddleston), um recluso músico underground que se esconde no interior de uma casa em ruinas de Detroit para se distanciar da cansativa rotina humana que o cerca. O que ocasiona uma costumeira tendência suicida em seu ser. Enquanto isso, Eve (Tilda Swinton), uma mulher enigmática e devoradora de livros que reside em Tanger, viaja urgentemente ao encontro de Adam, após o pedido de seu amado durante uma crise existencial. Unidos novamente, o clima de normalidade volta a habitar a vida de Adam, mas é interrompido quando Ava (Mia Masikowska), a irmã mais nova de Eve aparece inesperadamente e arruína a permanência discreta do casal na cidade violando o código de conduta vampiresco que os coloca em perigo.
Amantes Eternos” é uma experiência cinematográfica sensorial. Deliciosamente lento, o seu ritmo é devidamente preenchido com diálogos muito bem verbalizados por Tom Hiddleston e Tilda Swinton, como por uma trilha sonora maravilhosamente hipnótica de responsabilidade de Jozef Van Wissem e Yasmine Hamdan. O cineasta Jim Jarmusch resgata esse subgênero da mediocridade em que se encontrava após uma horda de filmes negativos e o mescla com seriedade a temas relevantes, abordando questões existenciais entrelaçadas com elementos da cultura popular de forma original e dramática. De atmosfera sombria e elegante, história simplista, o desenvolvimento seguro de Jarmusch da trajetória dos dois vampiros é inegavelmente curioso. Adam é um personagem avesso à evolução humana, frustrado com a humanidade ele se ocupa a colecionar raras guitarras adquiridas por um empolgado prestador de serviços de seu pequeno círculo de conhecidos que tem contato. Sobretudo, sua atenção está eventualmente voltada a encontrar soluções politicamente corretas para sua sobrevivência (o sangue do qual se alimenta provem de um banco de sangue que ele cuidadosamente contrabandeia). Enquanto isso, Eve é imensuravelmente mais fascinada pelos humanos, como por personalidades históricas que cruzaram o caminho de Adam ao longo dos séculos e que ele constantemente relata traços de suas personalidades e suas impressões pessoais sobre elas. Eles são o que os românticos afirmam ser: os opostos se atraem. O que rende ótimos e fascinantes diálogos bem proferidos pela dupla que esbanja serenidade e comprometimento com a proposta narrativa de Jarmusch. Enquanto Adam é mais contido e metódico, Eve é mais espontânea e fascinada pelas coisas que a rodeiam.
Mas a inesperada intromissão de Ava na casa é o desequilíbrio da harmonia, a quebra da zona de conforto a qual se encontram. Como ao mesmo tempo, a ação necessária e ausente da trama de Jarmusch, apesar de não ser muito intensa ou pelo menos duradora para o conjunto da obra. Talvez esse aspecto seja o único déficit desse longa-metragem, que não eleva as pretensões da trama a outro nível e sugere conduzir o espectador ao tom do ponto de partida. Porém “Amantes Eternos” é uma experiência válida de cinema pelas suas sutis qualidades técnicas, pelas envolventes interpretações do elenco principal e pela visão elegante de seu realizador que descarta exibições de caninos salientes e derramamentos de sangue ofensivos aos olhos.
Nota:  7,5/10
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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Crítica: Vingadores – Era de Ultron | Um Filme de Joss Whedon (2015)


É unanime assegurar que a empreitada de superar o resultado de seu antecessor não era uma missão fácil para o cineasta Joss Whedon. Sendo que “Vingadores”, de 2012, um dos maiores blockbusters lançados pela produtora Marvel e que havia se mostrado ao grande público como uma das obras mais bem sucedidas do cinema da aventura dos últimos anos, a meta de superá-lo era quase que previsivelmente impossível de ser realizada. Embora a primeira reunião orgânica de diversos personagens diferentes em um único longa-metragem acabou superando expectativas de crítica e público no final das contas, era lógico que sua sequência seria esperada com uma carga de anseio maior. Mas era provável também que a superação não se mostraria tão cedo em vista do obstáculo que se infligiu a si mesmo. Além do mais, essa crescente miscigenação de vários filmes interligados em uma corrente evolução do universo cinematográfico da Marvel que se expandia a cada ano dificultava ainda mais a tarefa. Mas “Vingadores – Era de Ultron” (Avengers Age of Ultron, 2015) é uma produção estadunidense de aventura e fantasia que obteve com êxito para surpresa de muitos, um nível de excelência considerável. Em sua trama acompanhamos Os Vingadores em busca do cetro de Loki, que está em posse da Hydra. Artefato recuperado, Tony Stark (Robert Downey Jr.) encontra nesse poderoso artefato a oportunidade de aperfeiçoar seu exército de robôs com a ajuda de Bruce Banner (Mark Rufallo) para criar uma inteligência artificial focada na proteção mundial e evitar desastres como os ocorridos em “Os Vingadores”. Mas a ideia acaba dando errada, gerando a criação de Ultron (com voz de James Spader), um robô de conceitos e motivações muito diferentes das quais foi idealizado e que tem o propósito de levar a paz através da destruição total da humanidade. Assim os Vingadores terão que se unir para salvar a humanidade dessa inesperada ameaça.

Vingadores – Era de Ultron” tem tudo que se esperava dessa épica produção: longas sequências de ação seguidas de ação; muitos efeitos visuais de um primoroso requinte que somente a Marvel Estúdios é capaz de imprimir; alguns novos personagens (como os gêmeos Mercúrio, interpretado por Aaron Taylor e Feiticeira Escarlate, interpretada por Elizabeth Olsen); um aprofundamento de personagens conhecidos da franquia que conferiu algo novo ao que se tinha como certo; boas passagens de humor não apenas disparadas por Robert Downey Jr. e um vilão bastante peculiar (totalmente em CGI e que talvez seja uma das maiores sacadas dessa produção). Embora tenha tudo que é positivo para engrandecer o alcance dessa franquia, também possui uma barreira implacável. A dificuldade de comportar todas as suas qualidades de forma justa a todos os personagens em uma única produção. Ainda que o roteiro de Joss Whedon nesse episódio toque na possibilidade, ele não consegue dominar com a mesma habilidade que antes. Mas o filme se eleva com a excelência de suas qualidades que são brilhantemente distribuídas ao longo dos 143 minutos de duração. A exploração de algumas novas nuance sobre os costumeiros personagens da franquia Vingadores (no caso da vida pessoal do Clint Barton interpretado por Jeremy Renner); um suposto romance proibido entre Viúva Negra e Hulk; além da estratégica inserção dos aprimorados gêmeos na trama e a inesperada apresentação de Visão (interpretado por Paul Bettany).

Personagens como os de Robert Downey Jr. (Homem de Ferro), Chris Evans (Capitão América), Chris Hemsworth (Thor), dispensam aplausos. Suas participações são as que costumeiramente mais fitam olhares. Mais do que a vontade em seus papéis, suas interpretações somente são dificultadas pelas complexidades do enredo que não são resolvidas pelo roteiro. Mas o destaque está por conta de Ultron. Inteligente, sarcástico, bipolar e de um visual bastante arrojado, sua criação se mostra mais do que acertada. Sua presença em tela se mostra realmente ameaçadora aos heróis, como o desafio de superá-lo se mostra muito mais complexo do que na empreitada anterior, já que para combatê-lo é preciso acima de tudo compreender suas intenções. Muito da personalidade de Ultron é herança de Tony Stark (uma sacada do roteiro), como o visual também segue a linha estética proposta pelos robôs de Stark. Outra surpresa se encontra na presença de Veronica (um robô customizado por Stark) que protagoniza um dos grandes embates dessa produção. Joss Whedon não economiza nos efeitos visuais, nas cenas arrebatadoras de ação e menos ainda no artifício costumeiro do gênero em inserir alguma piada no calor do momento.

Vingadores – Era de Ultron” não é aquilo tudo que muitos fãs da franquia esperavam, mas também não é diferente do que era necessário para fazer sucesso. Diversão comprometida com o divertimento e que não abala a qualidade que a Marvel tem imprimido em seus trabalhos. Equilibra com precisão o desejo de divertir com a necessidade de dar continuidade. 

Nota:  8,5/10
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Crítica: Thor – O Mundo Sombrio | Um Filme de Alan Taylor (2013)


Após os eventos ocorridos em “Os Vingadores”, Thor (Chris Hemsworth) sai em uma campanha para pacificar os Nove Reinos, enquanto Loki (Tom Hiddlestone) punido por sua traição permanece aprisionado em Asgard pelos crimes cometidos no planeta Terra. Mas o clima de normalidade restaurada começa a ruir, quando em Londres começa a surgir indícios de uma Convergência entre os Nove Reinos que ocorre a cada cinco mil anos. Esse raro evento chama a atenção de Jane (Natalie Portmann) que é tele transportada para um mundo sombrio onde testemunha a liberação do Éter, uma arma mortal de grande poder. Infectada pelo poder do Éter, isso também desperta a atenção de Thor que se alia a Loki e deixam as fronteiras de Asgard para salvar a vida de Jane e impedir que Malekith, um adversário antigo que oferece uma grande ameaça ao planeta Terra. “Thor – O Mundo Sombrio” (Thor: The Dark World, 2013) é uma produção estadunidense de aventura e fantasia baseada na história em quadrinhos de Don Payne e Robert Rodat, para os personagens da revista em quadrinhos “Thor” criada por Stan Lee, Larry Lieber e Jack Kirby. Com o roteiro de Christopher Yost, Christopher Markus e Stephen McFeely, a direção dessa aventura ficou a cargo de Alan Taylor. A Marvel seguindo a risca a estratégia que construiu ao longo dos anos, onde seus filmes seguem uma fórmula que os fazem estar organicamente interligados um aos outros, ainda consegue algo mais formidável: seus filmes funcionam como realizações isoladas que são bastante recompensadoras. E esse também é o caso de “Thor – O Mundo Sombrio”.

Nenhum outro filme anterior a “Thor – O Mundo Sombrio” usufruiu tanto dos benefícios da experiência da Marvel Studios. Observando em retrospecto, é incrível que a produção problemática desse longa-metragem que teve vários atritos nos bastidores nas mais variadas áreas de atuação, mudanças urgentes no roteiro e a necessidade de acertos inesperados no enredo por parte de Joss Whedon (responsável pela realização de “Os Vingadores) poucos meses antes de estrear, ainda tenha resultado em um blockbuster extremamente competente e divertido. Superior ao seu anterior, isso sem querer desmerecer o trabalho de Keneth Bragnahn, o diretor Alan Taylor entrega um produto leve e comprometido com os interesses da Marvel, sobretudo agradável aos fãs do personagem. Com claras evidências de amadurecimento dos personagens, onde todo o elenco principal se mostra mais a vontade em seus papéis, Chris Hemsworth demonstra estar mais do que apto para empunhar o Martelo de Odin por definitivo, como Tom Hiddlestone em sua interpretação de Loki foi capaz de mostrar ser um personagem tão fascinante quanto o próprio herói (praticamente Hiddlestone rouba a cena a cada aparição na tela). Essas são algumas das muitas melhorias que essa sequência demonstrou ter. Há outros ganhos relevantes que estão presentes no conjunto: o filme ganha boas passagens de tensão em que coloca a vida dos personagens num constante clima de perigo, reviravoltas pontuais que amarram bem toda a trama e uma dose bem equilibrada de humor inteligente que sempre é bem-vindo a filmes comprometidos com o entretenimento.

Com um orçamento muito mais generoso do que no primeiro filme solo do personagem título, “Thor – O Mundo Sombrio” esbanja apelo visual do inicio ao fim, seja nas locações ou nos efeitos visuais em CGI que ganharam muito mais explosão aos olhos do espectador. Tem ritmo de aventura e ação bem cuidada, com boas passagens de humor e um roteiro bem mais trabalhado do que seu antecessor, essa produção é garantia de entretenimento como é simplesmente o seu foco principal. No final das contas, ainda que não seja um dos melhores filmes da Marvel, trata-se de uma produção que dá continuidade a uma boa fase da produtora que tem conferido destreza e leveza a seus produtos como nenhuma outra franquia de personagens em quadrinhos tem conseguido.

Nota:  7,5/10
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segunda-feira, 18 de julho de 2016

Crítica: Os Oito Odiados | Um Filme de Quentin Tarantino (2015)


O destino é tão implacável quanto irônico, quando algum tempo após o fim da Guerra Civil de Wyoming, o destino reúne um pequeno grupo de diferentes sobreviventes sob o mesmo teto durante uma insuportável nevasca. Começando pelo caçador de recompensas, John Ruth (Kurt Russel) que está transportando uma famosa prisioneira de um bando de malfeitores, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que será levada para a cidade de Red Rock para responder a justiça. Ao longo da estrada, eles encontram o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), outro caçador de recompensas. Posteriormente Chris Mannix (Walton Goggins), um homem que afirma ser o novo xerife da cidade de Red Rock. Perdidos em uma terrível tempestade de neve, o pequeno grupo busca refúgio no Armazém da Minnie, um abrigo conhecido e bastante procurado nas redondezas. Quando chegam lá, são recebidos por alguns rostos desconhecidos: por Bob (Demián Bichir) um mexicano que afirma estar cuidando do lugar na ausência de Minnie; Oswaldo Mobray (Tim Roth), o carrasco de Red Rock; Joe Cage (Michael Madsen) um cowboy que está de passagem e Sanford Smithers (Bruce Dern), um confederado aposentado. À medida que a tempestade cessa esses oito personagens vão descobrindo os segredos um dos outros que os leva a um inevitável confronto sangrento. “Os Oito Odiados” (The Hateful Eight, 2015) é uma produção estadunidense de faroeste escrita e dirigida pelo cultuado cineasta Quentin Tarantino. Em seu oitavo filme, Tarantino cria uma inesperada peça teatral cheia de mistério e ótimas atuações.


Os Oito Odiados” é uma peça de teatro disfarçada de cinema. Embora o filme tenha as costumeiras cenas externas de um típico filme de western, praticamente todo desenvolvimento da sua simples premissa se passa no interior de um único cenário: o Armazém da Minnie. Todo o desenvolvimento da história é dividido em seis atos, onde a narrativa segue a fórmula de uma peça teatral brilhantemente customizada por um enredo que se revela um intrigante suspense de mistério policial. Acompanhar a revelação dos segredos dos oito personagens que se refugiam no interior do armazém é a grande sacada dessa produção, embora o filme não se esforce de nenhuma maneira em torna-los agradáveis para o espectador. Na verdade, aparentemente ninguém presta em cena, e que apenas permite ao público aguardar através de alguma brilhante reviravolta o porquê disso. Mais uma vez, Tarantino esbanja criatividade em sua mais nova empreitada, que mesmo sem o brilhantismo de alguns de seus filmes anteriores consegue imprimir seu estilo pessoal a esse longa-metragem. E como é de costume, Tarantino cria enredos de uma argumentação primorosa que possibilita que talentosos atores consigam apresentar o seu melhor desempenho. Os diálogos como sempre são de um requinte afiado, onde atores escolhidos a dedo como Samuel L. Jackson e Tim Roth apresentam interpretações fascinantes desde a primeira vogal. Agora, para a surpresa do público, atores como Kurt Russel e Michael Madsen que normalmente entregam desempenhos bem medianos em filmes ruins, curiosamente é sob a condução de Tarantino que acabam conseguindo se destacar de maneira no mínimo elogiável. Isso sem falar de Jennifer Jason Leigh resgatada do ostracismo, quase irreconhecível e de grande importância ao conjunto da obra.

Uma parte do filme foi filmado em 70mm como nos clássicos filmes de westerns (engrandecendo as cenas externas) enquanto o restante no tradicional formato 35mm. Porém pouco se aproveita desse diferencial aspecto, ainda que curioso pela adoção, sendo que as cenas externas onde melhor se destaca o recurso desse empenho acabam sendo muito mais raros do que se poderia esperar de um típico filme de faroeste. Sobretudo, a beleza visual é garantida como a trilha sonora de Ennio Morricone (habitual colaborador do cineasta) que se destaca nas mais variadas passagens. Embora esse mais recente exemplar assinado por Quentin Tarantino divida o público, muito se deve ao desfecho arrebatador marcado de violência e sangue que soou aos olhos de muitos como forçado, “Os Oito Odiados” tem todas as qualidades de seu realizador, como as derradeiras semelhanças com seus trabalhos anteriores.

Nota:  8/10   
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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Crítica: O Final da Turnê | Um Filme de James Ponsoldt (2015)


O suicídio de David Foster Wallace precisava de um parecer mais pessoal. Algo que simplesmente transpusesse as tristes e objetivas informações que notificavam sua morte. Algo que permitisse ao público conhecer um pouco mais dos bastidores de sua vida. O que a meu ver é o que realmente importa. Sendo que a entrevista realizada por David Lipsky para revista Rolling Stone americana sobre o celebrado escritor David Foster Wallace durante os últimos dias de divulgação de seu celebrado romance, A Piada Infinita (Infinite Jest), publicado em 1996 e que, cuja entrevista inclusive foi descartada pela revista na época, até pode não ser o retrato definitivo do autor, mas seguramente rendeu o material necessário para compor algo muito mais precioso. Embora David Lipsky nunca tenha decifrado o enigma de David Foster Wallace em sua plenitude, antes ou posterior a sua morte, mas quem sabe para a nossa surpresa ele tenha contribuído valorosamente de algum modo para aproximar a figura simples do escritor com a notória fama que conquistou. “O Final da Turnê” (The End of the Tour, 2015) é um drama biográfico estadunidense sobre o escritor David Foster Wallace. Dirigido por James Ponsoldt (responsável pelo “O Maravilhoso Agora), o filme tem o roteiro assinado por Donald Margulies com base no best-seller Although of Course You End Up Becoming Yourself publicado por David Lipsky. No longa-metragem acompanhamos o interesse do jornalista e escritor David Lipsky (Jesse Eisenberg), a serviço da revista Rolling Stone de fazer uma entrevista com o recém-descoberto e brilhante escritor David Foster Wallace (Jason Segel). Acompanhando de perto sua rotina de divulgação de seu novo livro, Lipsky tenta de todas as formas compreender toda a genialidade de seu entrevistado, que não contrasta com a inesperada figura do caipira simples com que Wallace se mostra.


O Final da Turnê” é uma experiência agradavelmente contemplativa. Pudera, já que a narrativa dramática documental conduz o espectador a uma experiência passional diante da relação entre entrevistador e entrevistado. A esperta sensação de introspeção do espectador é a mesma a qual a narrativa busca exercer sobre o personagem de Jesse Eisenberg. Tanto Eisenberg quanto o espectador passa por um lento processo de descoberta sobre as curiosas nuances do personagem de Jason Segel. Enquanto David Lipsky (que recentemente havia lançado um livro chamado The Art Afair no mesmo ano da entrevista) desejava ser reconhecido e famoso por sua obra, coisa que obviamente não obteve, o cultuado escritor David Foster Wallace vivia num tortuoso dilema com vários aspectos da fama. A conturbada entrevista de cinco dias não ajudou muito a Lipsky a compreender seu entrevistado. O filme que abre com o suicídio de Foster Wallace, em 2008 (tragédia que inspirou Libsky a escrever um livro de memórias em 2010 sobre o encontro) se desenvolve com uma estranha calma e umas pequenas passagens de tensão ocasionadas entre os dois personagens. Sobretudo o filme fecha com uma sensível homenagem nostálgica. Talvez as passagens de tensão que surgem no filme seja uma das poucas derrapadas da condução de James Ponsoldt. Após alguns desentendimentos que ocorre entre os dois, nas sequencias seguintes o clima de normalidade retorna de forma artificial e pouco orgânica.

Sobretudo, a atuação verborrágica de Jesse Eisenberg novamente surpreende, desde os tempos de “Rede Social”, enquanto Jason Segel se mostra fascinante no papel de escritor recluso. A difícil tarefa de decifrar o gênio literário que se esconde por baixo do homem simples que Segel estampa é compreensível, o que gera ótimos diálogos entre os dois protagonistas que debatem tantos assuntos diferentes e interessantes ao longo de toda a sua duração desse filme. Por isso, “O Final da Turnê” mostra um perfil sensível e instigante a respeito do escritor, acima de tudo sobre o caráter de sua pessoa, como uma cinebiografia indispensável aos apreciadores desse gênero de cinema.

Nota:  8/10 
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terça-feira, 12 de julho de 2016

Crítica: Sem Retorno | Um Filme de Tarsem Singh (2015)


O magnata e bilionário Damian Hale (Ben Kingsley) alcançou todos os possíveis níveis do sucesso profissional e financeiro. Mas o diagnóstico inesperado de câncer terminal o golpeou de uma forma que lhe fez repensar sua história, de sua vida e de sua relação com sua filha, Claire Hale (Michelle Dockery), com quem não teve muito contato devido a sua vida acarretada de compromissos. Mas quando o Professor Allbright (Matthew Goode) lhe informa sobre um procedimento médico revolucionário, onde a consciência de alguém é transferida para um corpo saudável criado artificialmente, Damian vê uma oportunidade de um prolongamento indeterminado de vida. Submetido ao procedimento, Damian retorna com uma nova identidade: Edward Kidner (Ryan Reynolds). Com uma nova vida e algumas prescrições médicas, Damian com sua nova identidade reinicia uma nova vida em Nova Orleans. Mas ao contrário do que ele imaginava, esse utópico procedimento que o levou a imortalidade esconde alguns segredos sujos e muita dor de inocentes. “Sem Retorno” (Self/Less, 2015) é uma produção de ficção científica e ação escrita por David e Alex Pastor e dirigida pelo diretor indiano Tarsem Singh (responsável pela tragédia grega “Imortais”, de 2011). Com uma boa introdução para tornar a trama plausível, um grande número de cenas de ação e algumas emoções válidas, essa produção acaba se distanciando de sua premissa de sci-fi e se tornando um bom thriller de ação.


Sem Retorno” apresenta um bom conceito como ponto de partida (a transferência de consciência de um corpo para outro). Além do mais, algo em seu enredo ressoa ligeiramente e sem compromisso sobre o thriller de ação “A Outra Face”, de John Woo, um sucesso dos anos 90. Com base nisso, sua história se desenvolve de forma burocrática e funcional, e depois passa a dosar de maneira equilibrada as revelações que proporcionam o material necessário para prolonga-la. Tarsem Singh age bem com a câmera e proporciona ao espectador inúmeras cenas bem filmadas (a direção de fotografia é de uma clareza e cores bem cuidadas), tanto no quesito principal da premissa de ficção científica que há no enredo quanto nas cenas de ação mirabolante que são permeadas ao longo dessa produção. Ryan Reynolds segura bem a responsabilidade de demonstrar um desempenho físico a altura das cenas ágeis que o filme lança na película (tiroteios, explosões e perseguições de carro), como a carga dramática que o personagem precisa ter diante de dilemas morais profundos (o valor de uma vida diante de outra). Embora a interpretação de Reynolds não lembre em nada a presença de Ben Kingsley no filme, o roteiro tem algumas boas sacadas, uma ou outra reviravolta bem sucedida. O que gera uma ótima oportunidade para boas atuações dos demais nomes do elenco. Nada na essência de “Sem Retorno” é memorável (tanto no quesito da sci-fi quanto no que se refere a ação que é apenas bem realizada), mas também é bem divertido e legal de ser acompanhado como um programa escapista como obviamente foi idealizado.

Nota:  7/10
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domingo, 10 de julho de 2016

Crítica: Caçadores de Emoção – Além do Limite | Um Filme de Ericson Core (2015)


Johnny Utah (Luke Bracey) nem sempre foi um agente do FBI. Após uma tragédia envolvendo um amigo numa trilha de MotoCross, ele abandonou a vida radical que levava e ingressou na disputada academia da agência federal para se tornar um agente do FBI. Praticamente formado e sob os cuidados de seu diretor, Utah recebe o seu primeiro teste de fogo: localizar e se infiltrar em uma gangue de audaciosos criminosos que supostamente são praticantes de esportes radicais. Está gangue liderada pelo filosófico Bodhi (Édgar Ramirez) está cometendo uma série de roubos improváveis sob as circunstâncias inesperadas que somente um especialista em esportes radicais como Utah pode detê-los. “Caçadores de Emoção – Além do Limite” (Point Break, 2015) é uma refilmagem de uma produção de ação policial de 1991, que tinha o surf, o paraquedismo e assaltos a banco como elementos marcantes em seu enredo e que foi dirigida por Kathryn Bigelow e estrelada por Keanu Reeves e Patrick Swayze. Embora grande parte desse remake remeta de alguma forma a lembrança do filme dos anos 90, pouco se aproveita dele. Repleto de belas imagens extraídas dos mais remotos cantos do planeta, permeado de acrobacias esportivas num roteiro equivocadamente desfigurado, essa modernizada que foi dada ao clássico de ação de Kathryn Bilegow por Ericson Core (responsável pelo competente “Invencível”, de 2006) não empolga como pretendido. Infelizmente para os fãs do filme original, há poucas razões para se conferir essa recondicionada do clássico.


Observar “Caçadores de Emoção – Além do Limite” como um longa-metragem completamente desconectado da obra original talvez seja mais interessante, já que uma comparação com o filme de 1991 se mostra conclusivamente uma desilusão. Considerando que o roteiro pobre e deficiente debilita sua capacidade de empolgar o espectador, mesmo com todas as melhorias visuais que o tempo possibilitou para a sua realização, as cenas de alpinismo, snowboarding e paraquedismo não são aquilo tudo a ponto de melhorar o nivelamento de qualidade de maneira significativa. Apostar que o visual arrojado sobressairia o cuidado com a trama foi um equívoco imperdoável aos envolvidos em sua realização. Ainda que a certo ponto o resgate do filme original seja bem intencionado, mas obviamente apenas em teoria, sua entrega carece de aprofundamento onde apenas medianas cenas de ação não conseguem elevar o seu nível de forma satisfatória. Os personagens estão lá, praticamente todos, mas distribuídos em uma história pouco estruturada. A ação é nervosa, inúmeras vezes caótica e desprovida de qualquer traço de brilhantismo visual. As atuações são desiquilibradas, artificiais e prejudicadas pela trama rasa. Embora a trilha sonora de Junkie XL seja antenada com a proposta, repleta de boas músicas e a direção de fotografia de Ericson Core seja melhor do que a condução geral do filme, não espere muito do conjunto. Por isso, “Caçadores de Emoção – Além do Limite” não é a máxima do gênero como poderia ter sido. Eu particularmente não sou avesso a remakes e reboots e menos ainda um purista quanto a originalidade, ao contrário de uma boa parcela de cinéfilos, mas é inegável que essa reinicialização não passa de um desagradável insulto ao clássico dos anos 90.

Nota:  4/10  
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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Crítica: A Mulher de Preto | Um Filme de James Watkins (2012)


Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) é um jovem advogado londrino que está sob muita pressão no trabalho. Viúvo desde o nascimento de seu filho, sua esposa, Stella (Sophie Stuckey) morreu no parto. Forçado a deixar seu filho aos completos cuidados da babá por alguns dias, ele viaja para uma pequena vila de Crythin Gifford para tratar dos assuntos da propriedade de um cliente da empresa em que trabalha e que recentemente faleceu e é dono de Eel Marsh House, uma casa supostamente mal assombrada. E chegando a arrepiante mansão, Kipps descobre uma série de segredos obscuros do passado dessa propriedade, da cidade e de seus antigos moradores onde todas as pistas o levam a vislumbrar uma aterrorizante Mulher de Preto. “A Mulher de Preto” (The Woman in Black, 2012) é um suspense de terror sobrenatural produzido no Reino Unido, escrito por Jane Goldman e dirigido por James Watkins. Baseado em um romance de Susan Hill, essa produção marca a estreia de cinema de Daniel Radcliffe após o término da franquia juvenil de sucesso chamada Harry Potter. Melhorado em alguns aspectos, essa refilmagem de um longa-metragem de 1989 tem como qualidade um visual impressionante, uma atmosfera sinistra e boas atuações por parte de todo o elenco, mas peca numa matéria primordial. Basta vermos alguns minutos de seu trabalho para constatar que o diretor James Watkins fez o dever de casa para a realização desse trabalho, mas obviamente não era o mais prodígio de sua turma para sanar os problemas de um roteiro ligeiramente decepcionante.

Tecnicamente impecável, seja em sua direção de arte ou na de fotografia, “A Mulher de Preto” tem um desenvolvimento bem nivelado que combina com talento uma série de qualidades válidas para um bom terror soft. Utiliza-se de uma variedade de soluções versáteis (a atmosfera é delirantemente sombria, a montagem é esperta e os sustos agradavelmente inesperados) para prender a atenção do espectador. A trama montada como um quebra-cabeça policial que nos leva a todas as respostas necessárias para a compreensão dos acontecimentos soa ligeiramente inteligente, embora de algumas passagens forçadas, mas também é arruinada por um “final surpresa” de pouco impacto e até mesmo arriscado para o conjunto. Assim, o bom elenco com nomes como Daniel Radcliffe, Ciaran Hinds (com quem Radcliffe trabalhou em “Harry Potter e as Relíquias da Morte), Janet McTeer e Liz White apenas cumprem com seu papel e se arrepiam para conferir crédito à lógica do enredo. “A Mulher de Preto” é um filme soberbo em quesitos técnicos, como as locações fascinantes (a mansão e tudo que a rodeia é incrível) são de deixar o espectador boquiaberto. Mas carece de força para ser realmente memorável. Em 2015 foi lançada uma sequência de inferior qualidade que provavelmente enterrou por definitivo as atividades sobrenaturais da Mulher de Preto.

Nota:  6/10   
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domingo, 26 de junho de 2016

Crítica: Voando Alto | Um Filme de Dexter Fletcher (2016)


Essa é a história real do primeiro e maior saltador de esqui da Grã-Bretanha.  Decidido a ser um atleta olímpico desde criança, Eddie Edwards (Taron Egerton), também conhecido por Eddie – A Águia, não desistiu de seu sonho pelas inúmeras dificuldades físicas e financeiras que lhe foram impostas pela vida. O desejo de realizar seu sonho falou mais alto. Para conseguir uma vaga nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, sediado no Canada, ele conta com a ajuda de Bronson Peary (Hugh Jackman), um ex-atleta desse mesmo esporte que no passado desistiu dos seus sonhos e encontra nas convicções de Eddie a chance de fazer as pazes com seu passado. “Voando Alto” (Eddie The Eagle, 2016) é uma comédia-dramática que acompanha a trajetória e as façanhas inspiradoras de Michael Edwards. Inglês, Edwards veio de um dos subúrbios de Londres e tinha o sonho de ser um atleta olímpico desde criança, e isso independente da modalidade. Seu grande objetivo era ir às olimpíadas. E se no inicio as olimpíadas tradicionais não podiam comportar o seu sonho, as de inverno conseguiram. Mas se as modalidades de ski tradicionais patrocinadas pelo comitê olímpico britânico não se mostravam muito gratos por sua determinação, extremamente preconceituosos com sua postura diante do esporte, foi no salto de ski onde ele fez história.

Voando Alto” tem uma combinação sólida de elementos vitais para alçar essa produção a um sucesso de público. Sua combinação de boas atuações, onde Taron Egerton não decepciona em seu desempenho (mesmo que à experiência de Hugh Jackman não tenha acrescido muito mais ao filme que seu próprio nome nos créditos); estrutura simples que recria toda a atmosfera oitentista com competência e detalhes (seja no visual ou na trilha sonora genial); e uma história de grande força de alguém obstinado a alcançar a realização de um sonho teoricamente impossível, tudo nesse filme está voltado para ser um ótimo filme de Sessão da Tarde que intenciona inspirar o espectador. Divertido na medida certa e emocionante de forma influente, “Voando Alto” não decepciona como sugere fazer na primeira hora. O roteiro dos estreantes Sean Macaulay e Simon Kelton está repleto de clichês, isso é verdade, mas todos inofensivos para estragar a experiência do espectador. Entre várias mensagens no conjunto o enredo explora bem uma das mensagens propostas pela produção, na qual, mais do que ser o melhor no que você se propõe, é fazer o seu melhor independente das circunstâncias. A direção ajustada de Dexter Fletcher (um antigo ator de “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, filme também produzido por Matthew Vaughn) que se mantem bastante focada na história em si contribui para isso. Se o tom da comédia não tem a eficiência desejada, onde as piadas não funcionam em sua totalidade, as ações e os dramas dos personagens ganham o coração do espectador na terceira parte. 

Assim sendo, muito da essência da história de Eddie Edwards se encontra em filmes como “Jamaica Abaixo de Zero”, de 1993 (um clássico de grande valor para esse gênero de filmes). Porém algumas soluções dadas pela produção para vida de Edwards soam excessivamente arquitetadas,  seja pelo roteiro ou pela direção de Dexter Fletcher, obviamente para funcionar de modo mais orgânico na película. Embora Voando Alto” seja atraente, isso não gera dúvidas, ele não tem a espontaneidade e a força do desfecho dada a história da primeira equipe olímpica de trenó da Jamaica (um esporte de inverno impossível de ser praticado num país tropical). Isso é certo. 

Nota:  7/10  
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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Crítica: Rua Cloverfield 10 | Um Filme de Dan Trachtenberg (2016)


Depois de um estranho acidente de carro ocorrido numa escura rodovia, Michelle (Mary Elizabeth Winstead) que foi resgatada do acidente desacordada por fim acorda bem, mas inexplicavelmente confinada em um abrigo subterrâneo na companhia de dois homens completamente estranhos. Um deles é Howard (John Godman), um ex-militar e dono do abrigo no qual se encontram e que alega ter salvado sua vida de um ataque químico que contaminou toda a superfície e impossibilita a permanência da vida sobre ela; e o outro é Emmett (John Gallagher Jr.), um antigo funcionário de Howard que colaborou na construção do abrigo e não pensou duas vezes em buscar ajuda no bunker subterrâneo quando viu o eminente ataque. Mas mesmo com toda a segurança que o abrigo possibilita aos três indivíduos, Michelle se mostra inquieta em relação à proteção que lhe é oferecida. Mesmo com todo o conforto e a proteção, algo de errado está acontecendo ao seu redor. E ao longo dos dias no confinamento do abrigo surgem alguns mistérios em relação a Howard que instala um clima de hostilidade entre os três sobreviventes que se mostra tão perigoso quanto à situação lá fora. “Rua Cloverfield 10” (10 Cloverfield Lane, 2016) é thriller de suspense estadunidense escrito por várias mãos e que marca a direção de Dan Trachtenberg. Quando em 2007, J.J. Abrams produziu e Matt Reeves dirigiu uma surpreendente ficção catástrofe chamada de “Cloverfield – Monstro”, os olhos do mundo se voltaram a essa estilizada produção que recebeu inúmeros elogios da crítica especializada e do público. “Rua Cloverfield 10” não foi diferente. Essa produção não para de acumular congratulações.


Parente distante da produção de 2007, “Rua Cloverfield 10” não se assemelha em nada ao desenvolvimento do filme antecessor que hoje tem os nomes de J.J. Abrams e Matt Reeves na produção. Filmado de forma convencional, sem o recurso do found footage em sua narrativa (método de filmagem onde os próprios atores interpretam seus personagens com a câmera na mão), essa produção herda pouco do legado deixado pelo filme de 2007, apesar do crédito de seu título (o nome Cloverfield é um conveniente chamariz de antigos espectadores). Sobretudo, “Rua Cloverfield 10” é um trabalho paralelo, com qualidades e aspectos singulares que o diferenciam e até o melhoram em comparação. De premissa intrigante, perfeitamente explorada pelo roteiro de modo inteligente, seu desenvolvimento está repleto de reviravoltas extremamente funcionais ao projeto. Entre passagens de tensão e ansiedade surgem momentos inesperados de leveza quebrados por uma impactante reviravolta. Dan Trachtenberg se mostra habilidoso em orquestrar essas mudanças de tom, o que oportuna para o delírio da plateia brilhantes atuações por parte desse pequeno trio de atores que nos prendem tanto ao confinamento quanto a história em si. O filme dá pistas que oscilam entre o fundamento e a falsidade, faz revelações dosadas ao espectador e ainda consegue com muita funcionalidade pregar uma peça no público com a mesma ênfase que Mary Elizabeth Winstead é golpeada. Por essa e outras razões que “Rua Cloverfield 10” tem acumulado elogios, gerado um lucro muito superior ao seu orçamento e garantido a possibilidade de uma possível continuação futura (o que faz valer o gancho que é mostrado em seu desfecho).

Nota:  8/10
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sábado, 18 de junho de 2016

Crítica: O Lobo de Wall Street | Um Filme de Martin Scorsese (2013)


Já não é de hoje que filmes biográficos estão na moda. E considerando o bom nivelamento dos filmes que vem sendo lançados nos últimos anos reconhecidamente visto em cerimônias de seletos festivais e premiações pelo mundo todo, isso demostra uma positiva tendência do cinema contemporâneo. Entre histórias de estimadas figuras públicas, pessoas revolucionárias de visão e trajetórias pessoais de superação que funcionam como uma forma de inspiração ao público, esse subgênero tem ganhado gradativamente um grande destaque em premiações de renome e ainda assim obtido um grande sucesso de público ao redor do mundo. Embora a maioria das histórias reais contadas no cinema são sobre figuras ou atitudes heroicas realizadas no passado por pessoas conhecidas ou publicamente anônimas, algumas outras cinebiografias são curiosamente sobre pessoas e ações menos nobres, mas em alguns casos igualmente fantásticas. Esse é o caso de “O Lobo de Wall Street” (The Wolf of Wall Street, 2013), uma produção dramática estadunidense inspirada na vida e nas memórias de Jordan Belfort. Baseado no livro de mesmo nome, o roteiro desse longa-metragem foi escrito por Terence Winter e dirigido por Martin Scorsese, onde acompanhamos a trajetória de ascensão e queda de um ambicioso corretor da bolsa de valores chamado Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) que se envolveu em série de crimes de fraude e corrupção em Wall Street na década de 90; e hoje dá palestras do tipo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu fiz porque no final das contas você vai se dar mal”.

O Lobo de Wall Street” é alucinante e enlouquecido de uma forma positiva. Todas as excentricidades e exageros apresentados no desenvolvimento desse filme ganham um tom cômico consciente que é capaz de extrair do espectador um leque variado de reações diferentes das mesmas cenas. Na maioria das circunstâncias, as ações surreais protagonizadas por Leonardo DiCaprio e seus comparsas poderia facilmente causar desprezo, mas a câmera de Martin Scorsese retrata esse repugnante conto de ambição regado a drogas com um toque de comédia bem-humorada. A ultrajante trajetória de Jordan Belfort é tão revoltante quanto bizarra pela forma que é contada, e crer que essas jornadas de impunidades as quais eles passavam nunca encontrariam a devida punição é quase inacreditável. “O Lobo de Wall Street” pinta um quadro colorido e decadente do setor financeiro que é conduzido por membros imorais, gananciosos e sem escrúpulos. Scosese não faz concessões em mostrar tudo isso de forma tragicamente hilária. Mas isso em suma, não é um defeito para obra do cineasta, e sim uma grata qualidade que faz sua longa duração passar voando. Enquanto DiCaprio entrega um desempenho fantástico para sua carreira, Jonah Hill como seu sócio rouba várias cenas do astro e se mostra uma grande surpresa para um conjunto de grandes interpretações. 

O Lobo de Wall Street” concilia de modo equilibrado informação e entretenimento com um nível de qualidade impressionante que somente um cineasta como Martin Scorsese, com a bagagem de experiência que tem atrás das câmeras poderia imprimir a um trabalho tão louco quanto esse filme. De atmosfera estrategicamente bem elaborada, ótimas atuações e um desenvolvimento perfeitamente capaz de desencadear polêmica, o resultado desse longa-metragem é energizado pelo conjunto bem comprometido com a intenção de causar reflexão. Tudo que é mostrado na película não é a glorificação do absurdo, mas a apresentação da solidez do sensato.

Nota:  8,5/10
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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Crítica: Um Santo Vizinho | Um Filme de Theodore Melfi (2014)


A pacata vida de Vincent (Bill Murray) está prestes a mudar com a chegada de seus novos vizinhos. Sua rotina de má-educação, bebedeiras e pequenas trapaças estão prestes a sofrer a interferência após a chegada da atribulada Maggie (Melissa McCarthy), uma mulher recém-separada e seu filho, Oliver (Jaeden Lieberher), um espirituoso menino que se mudam para a casa ao lado. Ainda em fase de adaptação em relação à separação, Maggie vê na figura de Vincent a possibilidade dele cuidar do garoto enquanto ela está no trabalho, embora não seja a pessoa mais indicada para a tarefa. E nessa arriscada união entre Vincent e Oliver surge uma forte amizade, onde o velho Vincent irá aprender tanto quanto o jovem Oliver que a santificação pode ser dedicada, como também encontrada até nos mais improváveis dos homens. “Um Santo Vizinho” (St. Vincent, 2014) é uma comédia dramática escrita e dirigida por Theodore Melfi. Estrelada pelo veterano e carismático da comédia Bill Murray (que já levou seu nome a icônicas comédias de décadas passadas) e pela a atriz em ascensão Melissa McCarthy (que tem enfileirado alguns sucessos divertidíssimos), há outros nomes de respeito e talento no elenco de apoio como Naomi Watts, Chris O´Dowd e Jaeden Lieberher que enriquecem o delicado resultado dessa singela história de amizade de pessoas tão diferentes.

Um Santo Vizinho” não se difere de uma infinidade de dramédias já lançadas até hoje. Se alça sobre uma história simplista, se arma de um punhado de clichês marcados pontualmente, se apresenta ligeiramente de modo previsível e se mantem em destaque através do talento e carisma de seu elenco principal. Mas o trabalho de Theodore Melfi em relação a “Um Santo Vizinho” é marcado de tanta dedicação que é impossível não se agradar com o resultado. Com um trabalho de câmera competente, montagem bem elaborada e uma trilha sonora envolvente, essa produção transborda irreverencia que lhe confere um gracioso envolvimento do espectador com a trajetória de seus personagens. É difícil imaginar que a figura de um velho rabugento, que bebe compulsivamente, fuma sem moderação, aposta em corridas de cavalo, aprecia o sexo com uma prostituta, seja capaz de ter uma boa índole no final das contas. Mas tem sim, e o roteiro de Theodore Melfi não somente combina com habilidade esse inesperado aspecto de seu caráter, como consegue conferir uma carga dramática expressiva ao enredo, com pequenas doses de sentimentalismo e brilhantemente suavizado com boas passagens de comédia. E se Bill Murray é o grande nome do elenco, que obviamente se destaca com facilidade, também é certo dizer que a atuação do jovem Jaeden Lieberher não faz feio diante do experiente ator que protagoniza ótimas passagens.

Um Santo Vizinho” é um filme divertido, dono de uma mensagem válida que cresce aos poucos no enredo e é apresentada de forma competente do começo ao fim. Curiosamente termina com um Bill Murray dividindo a tela com os créditos finais, apenas sendo Bill Murray como nos velhos tempos. Memorável sem querer ser.

Nota:  7,5/10   
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quinta-feira, 9 de junho de 2016

Grzegorz Domaradzki: Ilustrator. Designer gráfico. Artista.

I Am Gabz: Grzegorz Domaradzki

Seus cartazes alternativos de grandes clássicos do cinema são pura inspiração. Vale conferir a excelência de seu trabalho.  

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Crítica: O Enigma da Pirâmide | Um Filme de Barry Levinson (1985)


Londres, 1870. Enquanto várias pessoas andam cometendo inesperados suicídios ocasionados por inexplicáveis alucinações, os dois jovens, o aplicado Sherlock Holmes (Nicholas Rowe), um esforçado estudante de habilidades dedutivas bastante apuradas e John Watson (Alan Cox), um aluno de medicina recém-admitido na escola e mais novo amigo de Holmes inicia uma duradora amizade. Mas ao mesmo tempo algo de estranho ronda essas mortes que intrigam Holmes e os leva a uma perigosa aventura que revela uma sombria conspiração que age secretamente para assassinar importantes membros da comunidade britânica. “O Enigma da Pirâmide” (Young Sherlock Holmes, 1985) é uma audaciosa aventura de cinema produzida pela Amblin Entertainment e Industrial Light & Magic (onde ambas as empresas são de propriedade de Steven Spielberg) e foi escrita por Chris Columbus e dirigida por Barry Levinson. Trata-se de um filme de roteiro totalmente original sobre o personagem Sherlock Holmes, sem conexão com a obra original de Arthur C. Doyle. Aproveitando a lacuna deixada por Doyle, o roteirista Chris Columbus (que posteriormente tornou-se um grande cineasta de Hollywood também), criou o encontro dessa icônica dupla de personagens que as obras originais de Doyle não abordavam. De aparência datada, desenvolvimento simplista e de uma rara capacidade de causar empatia no espectador, esse pequeno conto dos primeiros passos de Sherolck Holmes nas grandes aventuras se mostra uma experiência válida a exploradores de aventuras oitentistas ou a nostálgicos cinéfilos.

Mesmo com um percentual expressivo de problemas, “O Enigma da Pirâmide” tem a sua magia exibida de uma forma bastante particular. Mais interessante no seu propósito inicial, o de abordar o encontro inicial de uma intensa parceria, do que no seu desenvolvimento raso de trama e montagem, o filme funciona como uma obra interessante de entretenimento nostálgico.  Ainda que essa produção não tenha o peso e a relevância de outras aventuras dos anos 80, como as protagonizadas por Indiana Jones, ou o valor de filmes como “Os Goonies”, os quais todos tinham o envolvimento de Steven Spielberg na produção, “O Enigma da Pirâmide” envelheceu bem. Brilhantemente protagonizado por Nicholas Rowe, seu Sherlock juvenil é a melhor coisa dessa produção. Sua atuação é de uma simpatia cativante e bastante convincente para o personagem, onde Barry Levinson consegue combinar muito bem várias nuances presentes nas obras originais (o chapéu, o cachimbo e o fato que ocasionou para que Sherlock Holmes nunca viesse a se casar) onde tudo está reunido e sutilmente distribuído nessa pretensa inicialização ao mundo das investigações extraordinárias. Embora a trama não seja um primor de costura, debilitada já em sua base, a atmosfera criada para o filme é bastante funcional e gera bons momentos de drama e humor. O filme foi ganhador do Oscar de Melhor Filme de Efeitos Visuais em 1986, ao apresentar os primeiros toques de cenas digitalizadas em um longa-metragem. Por fim, “O Enigma da Pirâmide” é uma aventura divertida, naturalmente descompromissada como qualquer filme de Sessão da Tarde. Mas isso não é defeito, apenas uma particularidade.

Nota:  7/10
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domingo, 29 de maio de 2016

Crítica: Jogo de Espiões | Um Filme de Tony Scott (2001)


Nathan Muir (Robert Redford) é um ex-manda-chuva da CIA que se prepara para se aposentar de suas responsabilidades na agência. Depois de uma longa e promissora carreira na cadeia de comando CIA, um dia antes do tão famigerado dia de sua aposentadoria ele é surpreendido com uma inesperada notícia: um de seus pupilos, e também grande amigo, o agente Tom Bishop (Brad Pitt) está preso e condenado à morte em uma prisão chinesa, onde a sentença será executada no prazo de 24 horas. Determinado a libertá-lo antes que o prazo se esgote, mesmo sem o consentimento do governo americano, toda sua experiência é colocada á prova. Sendo que ao mesmo tempo em que tenta salvar o amigo da morte, ainda precisa lidar com o jogo interesses dos chefões da inteligência que estão ansiosos para colocá-lo de lado por definitivo. “Jogo de Espiões” (Spy Game, 2001) é thriller de espionagem internacional dirigido pelo britânico Tony Scott (1944-2012), realizador de filmes comoTop Gun: Ases Indomáveis”, “Déjà Vu”, “Inimigo de Estado”, entre muitos outros mais. Escrito por Michael Frost Beckner e David Arata, em contrapartida de seu desenvolvimento inverossímil, o filme é intenso, ágil e repleto de boas sacadas narrativas, onde essa produção está recheada de várias qualidades de seu realizador que consegue extrair da mais simplista premissa uma dose extra de energia.  

Jogo de Espiões” não é máxima do gênero, mas tem o seu valor. E justamente por ter sido feito por quem foi. Tony Scott (irmão de Ridley Scott) sempre buscou levar o espectador a uma experiência eletrizante, repleta de adrenalina e que prenda a atenção do espectador do começo ao fim sem dificuldades, mas não necessariamente memorável. Suas capacitações sempre se focaram em histórias enxutas que pudessem ganhar força na forma e no movimento. E isso ele sempre conferiu ao seu trabalho, como combinar talentos consagrados no elenco com propensos astros; além de imprimir uma roupagem arrojada através do uso de um condicionamento técnico sofisticado no desenvolvimento de suas histórias de claro foco comercial. Em “Jogo de Espiões” não é diferente. Acompanhar com atenção Robert Redford no complexo jogo de intrigas internacionais com suas memórias do passado quando recrutou Brad Pitt no fervo do Vietnã, além de missões conjuntas, o filme esbanja habilidade na montagem do nostálgico passado com alarmante presente. Duas atuações de grande trunfo que ganham intensidade pelas competências de Tony Scott. O filme tem em seu conjunto uma boa dose de humor inteligente e um toque de ação e suspense bem conduzido. “Jogo de Espiões” não é o melhor thriller de espionagem que já vi, como também não é o melhor filme realizado por Tony Scott, mas apresenta duas ótimas atuações dos protagonistas que elevam o resultado e ao mesmo tempo estampa várias qualidades que seu realizador adotava em seu trabalho.

Nota:  7,5/10
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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Crítica: Darkman: Vingança Sem Rosto | Um Filme de Sam Raimi (1990)


Peyton Westlake (Liam Neeson) é um empenhado cientista que tem todo o seu trabalho focado na pesquisa e criação de peles sintéticas para auxiliar pessoas no tratamento de deformidades estéticas. Mas durante a fase final do desenvolvimento da pele, ele é atacado e brutalmente espancado dentro de seu laboratório e deixado para morrer em uma explosão. Embora tenha sobrevivido a explosão, seu rosto e seu corpo ficaram completamente desfigurados por graves queimaduras. Submetido a uma cirurgia que inibe qualquer sensibilidade física, seu corpo perde a capacidade de sentir dor, como também passa a produzir doses extremas de adrenalina que lhe conferem grande força e uma resistência física superior a uma pessoa normal. Porém há outro efeito colateral preocupante: ele passa a ter ataques de nervos que o tornam extremamente agitado que o levam ao total descontrole emocional, algo com ele tem que aprender a lidar. Mas quando ele consegue dominar os prós e contras de sua nova pessoa, Peyton começa a arquitetar um plano de vingança aos seus malfeitores usando suas pesquisas de pele para criar disfarces acima de qualquer suspeita. “Darkman: Vingança Sem Rosto” (Darkman, 1990) é um produção estadunidense de ficção científica e ação dirigida por Sam Raimi (o mesmo responsável pela trilogia oitentista “Uma Noite Alucinante” e pelos filmes da primeira franquia “Homem-Aranha” iniciada entre 2002 a 2007). Após ter sido negado a Sam Raimi o direito de adaptar e dirigir o personagem The Shadow (um pioneiro super-herói dos quadrinhos a qual a trama se passa na década de 30) para as telonas, Raimi decide criar seu próprio super-herói aos moldes de suas aptidões narrativas. Não é que deu certo.

Darkman: Vingança Sem Rosto” foi o primeiro longa-metragem de estética e narrativa semelhante a um filme de super-herói lançado pelo cineasta. Embora não tenha sua origem firmada nas páginas dos quadrinhos como é de costume, e igual a outro famoso personagem aracnídeo (leia-se Homem-Aranha por aracnídeo) que adaptou para as telonas bem mais tarde, Darkman segue veemente um conjunto regras desse subgênero com algumas liberdades poéticas (a máscara é uma necessidade vital). Sobretudo, o personagem tem em sua essência um coração puro, que se sujeita a uma vida de abnegações (a impossibilidade da continuidade de seu amor por sua esposa) e que possui uma trajetória de sacrifícios para perpetrar a justiça sobre o mal. Obviamente com um toque autoral de seu realizador, que não suaviza os acontecimentos do enredo e radicaliza ao mostrar sua jornada de vingança e justiça. Interpretado com o brilhantismo que somente Liam Neeson seria capaz conferir a um personagem inverossímil e fantástico como Darkman, o filme se mostra uma experiência genial de seu tempo. Mesmo com uma trama improvável num mundo real, uma aparência de pouco apelo visual se comparado aos atuais filmes de super-herói e muita competência na frente e atrás das câmeras, “Darkman: Vingança Sem Rosto” é um filme imprescindível para ser redescoberto. Sem os encantos de uma grande produção hollywoodiana, ainda assim esse filme consegue na maior parte dos casos, causar com sua simplicidade uma grande empatia do público. Embora tenha posteriormente gerado duas sequências: “Darkman II: O Regresso de Durant”, lançado em 1995; e “Darkman 3: Enfrentando a Morte”, de 1996; ambos de pouca pertinência. Obviamente o primeiro é imbatível.

Nota:  8/10   
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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Crítica: Capitão América: Guerra Civil | Um Filme de Anthony Russo e Joseph V. Russo (2016)


A Marvel tem se estabelecido com grande fluência na sétima arte nesses últimos anos. Se não bastassem as primorosas adaptações da franquia dos X-Men que ganharam contornos de reinvenção a partir de “X-Men: Primeira Classe”, a trajetória de todos os personagens em volta dos Vingadores tem obtido grande sucesso de público e crítica. Os filmes da Marvel tem adotado um satisfatório padrão de qualidade como nunca se tinha visto antes. São em geral, adaptações de enredo genialmente esculpido nos moldes do universo cinematográfico da Marvel e realizadas com grande competência pelos mais variados realizadores. “Capitão América: Guerra Civil” (Capitain America: Civil War, 2016) é um filme de super-heróis da Marvel Studios baseado em um dos mais pertinentes arcos dos quadrinhos que dá continuidade a uma excelente fase da produtora. Em sua trama acompanhamos o crescente agravamento da opinião pública sobre as atividades dos Vingadores. Após outro incidente que acabou causando danos colaterais para a imagem do grupo liderado por Steve Rogers, o Capitão América (Chris Evans), a pressão do governo para instalar uma politica de comando e supervisão sobre as atividades dos Vingadores se intensifica. Motivada pelo Homem-de-Ferro, o também multimilionário Tony Stark (Robert Downey Jr.), a ideia se confronta com os conceitos e interesses do Capitão América, o que acaba criando duas distintas equipes de super-heróis que irão entrar em combate por seus ideais.


Capitão América: Guerra Civil” tem pouco de adaptação em sua estrutura. Semelhanças existem (algumas motivações e personagens familiares), mas ainda assim poucas para se chamar de adaptação. A obra dos quadrinhos escrita por Mark Millar e desenhada por Steve McNivem serviu mais como uma preciosa inspiração para esse novo produto, já que toda essência do material original está convenientemente moldada ao enredo dos demais filmes dessa franquia da Marvel. Filmes como “Vingadores: A Era de Ultron” e “Capitão América: O Soldado Invernal” ressoam sobre a narrativa de “Capitão América: Guerra Civil”, e as qualidades do roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely ganham força pela competência dos diretores Anthony Russo e Joseph V. Russo. O desenvolvimento de novos personagens como o do jovem Homem-Aranha (Tom Holland) e o do Pantera Negra (Chadwick Boseman) são uma surpresa agradável ao conjunto. A presença de Tom Holland é a surpresa do alívio cômico que o filme precisava gerando uma boa promessa para novos filmes. Personagens já conhecidos do universo cinematográfico da Marvel ganharam mais aprofundamento do que se poderia esperar, e atuações dramáticas como a de Chris Evans e Robert Downey Jr. são bem-vindas a um filme normalmente associado a um produto de evidente entretenimento fácil. O Homem de Ferro está mais sério do que em qualquer outro filme anterior. Além do mais, os diretores habilidosos em amarrar os acontecimentos de importância da trama principal, ainda se destacam brilhantemente em orquestrar sequências de ação inspiradas (destaque para sequência final de luta entre Homem de Ferro contra Capitão América e o Soldado Invernal).

No final das contas, “Capitão América: Guerra Civil” é um dos melhores filmes dessa franquia até o momento. E olha que muitos diziam ser impossível superar a eficiência de “Capitão América: O Soldado Invernal” de tão bom que era. Mas esse filme tem a essência de sua trama bem ajustada aos percalços dos personagens na telona, a ação é pontual de forma significativa e vibrante e o desfecho resultante de uma inesperada reviravolta na história que deixa o público dividido entre para quem vamos torcer é também, um bem-vindo desencadeador de debates. Um ótimo filme de entretenimento como vários outros da marca Vingadores.

Nota: 8,5/10
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