quinta-feira, 27 de março de 2014

Crítica: Jovem & Bela | Um Filme de François Ozon (2013)


Isabelle (Marine Vacth) é uma jovem francesa de 17 anos como qualquer outra de sua cidade. Isabelle estuda em uma boa escola onde cursa o colegial, tem alguns amigos que se mostram relevantes para ela e uma amável família que lhe proporciona estrutura e condições financeiras que lhe conferem boas condições de vida, embora faça alguns trabalhos de babysitter ocasionalmente para ganhar algum dinheiro extra. Mas após um evento ocorrido nas férias de verão na praia (a perda da virgindade), ela revela-se em seu retorno transformada. Prostituindo-se constantemente, Isabelle começa a levar uma perigosa e inesperada vida dupla. "Jovem & Bela" (Jeune et Jolie, 2013) é um longa dramático escrito e dirigido por François Ozon, no qual acompanhamos sua misteriosa, para não dizer enigmática protagonista pelas quatros estações do ano (acentuadas por canções que enfatizam cada etapa do desenvolvimento de modo explícito) dividido em quatro capítulos. Sem uma história necessariamente original, Ozon surpreende pela inspirada abordagem que nunca deixa evidente as verdadeiras motivações de Isabelle para se prostituir, gerando sistematicamente material para que propague inúmeras suposições que necessitam ser desvendadas e que consequentemente despertam no espectador uma magnética chamada de atenção. Além do mais, ganha valorosos pontos pela criação de delicadas das imagens, seja do ambiente em que se passa a trama, ou de sua protagonista (em momento algum a nudez de Marine Vacth soa apelativa), como no desenvolvimento narrativo responsável que introduz passagens carregadas de inquietude materializadas nos personagens que buscam os serviços de Isabelle.

Distante de ser tão brilhante quanto seu trabalho anterior (Dentro de Casa, 2012), Ozon continua a botar em prática seu gosto pelo voyeurismo, aqui materializado na figura simpática do irmão mais novo de Isabelle interpretado pelo ator mirim Fantin Ravat, cuja relação é marcada de cumplicidade e admiração que gera momentos fascinantes de interpretação conferindo uma dose bem medida de lirismo a sua história. Se na maior parte do tempo Marine Vacth transparece uma certa melancolia, demonstrando claras dificuldades emocionais onde amar se mostra um sentimento de alcance distante, o garoto extrai de sua irmã momentos saborosos de leviandade. Além de investir em algumas subtramas que acompanham a família de Isabelle, de amigos e clientes, Ozon preenche sua obra com um ambiente que dá intencionalmente pistas da maior de todas as questões em volta dessa jovem: Por que uma jovem que não necessita iria se prostituir? Levando em consideração a lógica em volta das circunstâncias que cercam Isabelle (o despertar da sexualidade e as confusões resultantes dessa complicada fase da vida de qualquer jovem independente de ser homem ou mulher) isso sumariamente poderia servir de resposta a atitude da jovem. Ganância até foi especulado a certa altura do desenvolvimento. Mas o mundo criado por Ozon é em teoria mais complexo, desprovido de respostas lógicas que habitam manuais de auto-conhecimento, muito menos fáceis ainda que seu desenvolvimento procure demonstrar tal intenção com um desenvolvimento carregado de situações familiares ao enredo (materializadas por reações de auto-negação da família seguido por uma aceitação didática pouco convincente). Talvez o verdadeiro toque de genialidade desse longa-metragem, quando ao dosar a resposta com inúmeros indícios, ainda presenteie o espectador com um desfecho capaz de gerar diferentes interpretações. Um exercício narrativo agradável, "Jovem & Bela" lembra vários outros filmes cujo o enredo tem o desejo voluntário pela prostituição. Mas ao contrário dos homens (cuja crença popular feminina afirma que todos os homens são iguais) as mulheres naturalmente são um mistério diferenciado, ou pelo menos nada óbvias conceitualmente.

Nota:  7,5/10
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2 comentários:

  1. eu gostei bastante tb e comentei aqui http://mataharie007.blogspot.com.br/2016/04/jovem-e-bela.html

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    1. Suave, bonito e bastante funcional ao que se propõe, como a maioria dos filmes franceses. Adoro!

      bjus

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