quarta-feira, 21 de junho de 2017

Crítica: Lugares Escuros | Um Filme de Gilles Paquet-Brenner (2015)


Libby Day (Charlize Theron) tinha apenas oito anos de idade quando numa noite apavorante sua família foi brutalmente assassinada. Esse massacre ocorreu em uma cidade rural do Kansas e ganhou notoriedade na época (a justiça chegou a um veredito de que um culto satânico, ao qual seu irmão interpretado por Tye Sheridan era membro, foram os responsáveis pelos assassinatos e o irmão de Libby foi condenado no tribunal). Como também esse crime se manteve vivo na memória de muitos durante anos, pois Libby viveu durante muitos anos de doações de pessoas que se comoveram com sua tragédia. Quase trinta anos depois, Libby passando por dificuldades financeiras, acaba mediante um pagamento aceitando rever os detalhes do crime sob a pressão de um estranho clube, onde seus membros investigam crimes famosos que demonstram não ter todas as possibilidades exploradas. “Lugares Escuros” (Dark Places, 2015) é um thriller de suspense escrito e dirigido por Gilles Paquet-Brenner. Baseado no romance de mesmo nome escrito por Gillian Flynn, suas peculiares histórias caíram no gosto de Hollywood, que decidiu dar continuidade ao sucesso da escritora nas telonas. Depois do reconhecimento dado a “Garota Exemplar”, em 2014 (uma imbatível realização cinematográfica de David Fincher, que também tem como base a obra literária de Gillian Flynn); o diretor e roteirista Gilles Paquet-Brenner se mostra bastante competente em transpor essa segunda obra de Flynn para o cinema, contanto que o espectador releve o fato dessa produção não deter a mesma excelência do trabalho de David Fincher.

Lugares Escuros” tem tudo em seu lugar. Uma trama instigante de personagens variados que atravessam o tempo, uma atmosfera de suspense bem criada e atuações bastante válidas por parte de todo o elenco (destaque para Nicholas Hoult e Christina Hendrics). Embora Charlize Theron não tenha sido a primeira escolha de protagonista para essa produção (Amy Adams estava cotada para o papel principal, mas devido a problemas de agenda foi substituída), a atriz carrega a responsabilidade do personagem de modo brilhante. Seu desempenho nos arremessa com precisão ao seu passado e nos desperta para seu presente em constantes movimentos temporais bem elaborados. O diretor Gilles Paquet-Brenner demonstra ter feito o dever de casa no que diz respeito de saber utilizar toda estrutura narrativa da produção em beneficio do enredo, que amarra os acontecimentos sobre a famigerada noite e a presente investigação ao máximo para instigar o interesse do espectador. Entre inúmeros flashbacks e a manipulação de imagens a serviço do conjunto, o roteiro trabalha as hipóteses, as possibilidades e desvirtua as certezas em volta da autoria do crime que condenou o irmão de Libby a penitenciária. Seu problema é que as revelações vêm numa onda devastadora, que arrebata o espectador em um desfecho quase que repentino e que causa uma sensação de pressa desnecessária. A necessidade de não deixar pontas soltas é prejudicada pela costura relâmpago que pode tontear um espectador menos atento a todos os aspectos abordados nos inúmeros flashbacks.

Sobretudo, “Lugares Escuros” é uma trama de mistério e suspense que funciona comercialmente como poucas (muito se deve ao talento dos nomes do elenco que estão envolvidos nessa produção); como também demonstra ter sido transposta das páginas do livro para o formato cinematográfico com uma bem nivelada competência. Contanto que o espectador controle suas expectativas e não espere ver como resultado uma obra a altura de “Garota Exemplar” (notem a associação estampada no cartaz que está em relevo) só porque foi vendida como tal.

Nota:  7/10
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terça-feira, 20 de junho de 2017

Crítica: Campo de Jogo | Um Documentário de Eryk Rocha (2014)


A paixão pelo futebol, principalmente a que reside no coração do brasileiro é capaz de elevar, obviamente no imaginário de cada um dos competidores e de sua torcida, o mais despretensioso dos torneios a um patamar bem mais elevado do que muitas vezes se mostra realmente. Porque o futebol, para o brasileiro não é apenas um esporte, mas uma paixão crônica, inexplicável e digna de ser eternizada seja por sua história ou pelas suas possibilidades. O futebol se mescla a uma série anseios e expectativas, exigindo não somente do corpo, mas da alma do praticante e do torcedor. O espirito de competividade que muitas adormecido no brasileiro, se inflama de uma forma como em nenhuma outra circunstância e o desejo da vitória a todo custo transcende a ação e o tempo. O futebol para o brasileiro é marcado de poesia, certezas inabaláveis e confrontos épicos repleto de particularidades. E acompanhar os preparativos do campeonato de futebol das favelas, onde Geração e Juventude disputam a final representando as comunidades Matriz e Central no documentário “Campo de Jogo” (2014), dirigido pelo brasileiro Eryk Rocha (filho do cineasta Glauber Rocha), talvez seja um estudo valoroso da materialização de todo esse amor carregado de particularidades por esse esporte conhecido mundialmente. Esse inspirado retrato de poesia visual sobre o espaço e tempo dedicado ao futebol por jovens da periferia é de um resultado bastante promissor ao mesclar seus dramas pessoais ao campo.

Campo de Jogo” não é feito com o propósito de agradar espectadores que estão habituados a ver o futebol no televisor. Eryk Rocha materializa algo muito mais sensorial, estético e marcado de poesia. A retratação dos preparativos do ambiente que ocorre anterior ao jogo, uma acompanhada nos semblantes tensos dos competidores ao mesmo tempo em que retrata o estresse da torcida, discursos motivacionais proferidos por técnicos amadores, a delicada posição de vulnerabilidade do árbitro, são todos aspectos conferidos e brilhantemente articulados pela câmera de Rocha, que abusa de close up e de slow motion enquanto é acompanhada por uma trilha sonora variada (destaque para a direção de fotografia de Léo Bittencourt que agiganta a modesta disputa). O futebol aqui retratado, o esporte em si é mais mítico, dotado de poesia. Essa associação comum desse esporte a uma espécie de arte é bastante desenvolvida pela narrativa. Por vezes é perceptível que a retratação do gol é a menor das preocupações de Rocha, sendo que sua câmera tem como prioridade as expressões pessoais dos envolvidos e as reações calorosas do público. Mas “Campo de Jogo” não é apenas, ou deseja ser um exercício visual e narrativo apurado que tem como pano de fundo a atmosfera esportiva do futebol de várzea, mas representa de uma maneira fluente e funcional a intensidade da interferência desse esporte no contexto social da sociedade brasileira.

Nota:  7/10
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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Crítica: Eu, Você e a Garota que Vai Morrer | Um Filme de Alfonso Gomez-Rejon (2015)


Greg Gaines (Thomas Mann) é um adolescente comum que está tentando passar de modo discreto pelo Ensino Médio. Seu circulo de amizades é bastante enxuto, sua rotina de vida sempre se mantem previsível e as suas preocupações com o futuro são muito contraditórias para um jovem adolescente. Mas coisas mudam, quando sua mãe o força a intensificar uma amizade com Rachel (Olivia Cooke) um jovem que mora nas proximidades do bairro e a quem Greg tem pouco contato. A razão dessa inesperada aproximação? Recentemente foi descoberto que Rachel possui leucemia e a mãe de Greg pensou ser uma boa ideia que ele desse uma espécie de apoio a jovem que não tem reagido bem após a notícia. Porém, toda a relutância dessa aproximação quando aos poucos se estabelece um laço de amizade tão forte e surpreendente quanto as razões que iniciaram essa forçada amizade. “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer” (Me and Earl and the Dying Girl, 2015) é uma produção estadunidense de drama baseada no livro homônimo de Jesse Andrews, que também assina o roteiro e dirigido pelo texano Alfonso Gomez-Rejon. Sendo seu segundo longa-metragem, Alfonso Gomez-Rejon começou sua carreira como assistente pessoal de grandes nomes do cinema, como Robert De Niro e Martin Scorsese e trabalhou como diretor de segunda unidade de direção para cineastas como Nora Ephron, Alejandro Gonzalez Inarritu e Ben Affeck. Também se especializou na direção de seriados, como “Glee” e “American Horror Story”. Embora pouco famoso, mas bastante experiente, Alfonso Gomez-Rejon entrega um filme que não surpreende que tenha ganhado o Grande Prêmio do Júri e do Público no Festival de Sundance em 2015.

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer” é uma produção dramática adolescente que envolve o espectador com calma. Sem atropelamentos narrativos, apresenta apenas o essencial com alguns toques artísticos (há várias inserções de cenas de animação em stop motion no decorrer de todo filme) para familiarizar o espectador com o enredo. O filme deixa isso bem claro, quando o próprio Greg não sabe nem exatamente como fazer isso em uma de várias narrações em off que ocorrem ao longo de todo desenvolvimento da história. Há uma burocrática apresentação dos personagens (salientando algumas nuances específicas de cada um) do ambiente estudantil no qual se passa a trama e do foco da história que gira em volta da doença de Rachel que pega todos de surpresa. Há uma inventiva exploração dessas reações de surpresa, que utiliza o humor como ferramenta de alívio ao enredo pesado e o drama como um sustento mais respeitoso a premissa. Em suma, encontra-se o equilíbrio perfeito entre a comédia e o drama que ameniza e prepara o espectador para essa tragédia anunciada no título. Alfonso Gomez-Rejon se mostra muito criativo na arte de contar histórias, quando deixa o enredo dialogar com a narrativa. Greg e seu único amigo, Earl interpretado por RJ Cyler passam grande parte de seu tempo fazendo filmes caseiros e animações que parodiam clássicos que são articulados dentro da trama como forma de enriquecimento da história principal. Se o elenco adulto cumpre sua função de modo bacana (destaque para o professor de literatura interpretado por Jon Bernthal, o elenco mais jovem é soberbo. A passagem onde Rachel informa a Greg que deseja parar com a quimioterapia, o que gera um profundo debate entre os dois é de uma carga dramática fantástica. Sem fundo musical e sem edição, toda a discussão filmada em apenas um plano sequência, os dois se mostram escolhas de elenco perfeitas.

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer” tem um pouco da essência do cinema indie com uma autenticidade própria. O roteiro de Jesse Andrews não tenta vender um manual de etiqueta pronto ao espectador para uma situação como a qual Greg é lançado. O filme ambiciona muito mais, pois indo dos risos as lágrimas, essa produção conta uma história pessoal fictícia com emoção e a devida pungência que o enredo necessita. Há uma tocante pretensão de mostrar que, com uma sincera alegria, pode-se obter conforto, e o verdadeiro companheirismo, pode pelo menos aliviar alguns aspectos da dor, quando não curar. E isso nos leva a um clímax surpreendente aos sentidos, acompanhado da brilhante ideia suplantada na concretização do epílogo de que a vida não termina necessariamente na morte.

Nota:  9/10
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domingo, 18 de junho de 2017

sábado, 17 de junho de 2017

Crítica: Beleza Oculta | Um Filme de David Frankel (2016)


Após uma tragédia pessoal não superada, Howard (Will Smith) entra em uma profunda depressão a qual, como uma estranha válvula de escape para anestesiar sua dor, passa a escrever cartas para a Morte, o Tempo e o Amor. Algo que quando chega ao conhecimento de seus amigos e colegas de trabalho, os preocupa e põem a sanidade de Howard sob uma cuidadosa avaliação: será que Howard está louco? A reposta para essa pergunta vem na forma mais inquietante que se poderia imaginar. Pois quando para a surpresa de Howard, o que parecia ser loucura aos olhos de todos torna-se realidade, e inesperadamente esses três elementos do universo da vida passam a entrar em contato com Howard e pessoalmente começam a tomar dele satisfações quanto à direção que tem tomado o seu futuro, algumas barreiras intransponíveis se dissolvem não apenas para ele, mas para todos ao seu redor. “Beleza Oculta” (Beauty Collateral, 2016) é uma produção estadunidense de drama escrita por Allan Loeb e dirigida por David Frankel (diretor responsável pelo longa-metragem de sucesso “O Diabo Veste Prada). Com nomes famosos no elenco principal, como Will Smith, Kate Winslet, Edward Norton, Helen Mirren, Keira Knightley e Michael Peña, o diretor aproveita a insólita história desenvolvida pelo roteirista Allan Loeb, onde todos contribuem para a entrega de um filme carregado de emoções que aproveita bem os talentos dramáticos de Will Smith.

Beleza Oculta” foi de certo modo massacrado pela crítica especializada. O tomatômetro do Rotten Tomatoes o qualificou com 13% de aproveitamento (uma nota extremamente baixa), enquanto o IMDB lhe deu uma nota regular de 6,8 pontos (eu particularmente julgo que geralmente qualquer coisa acima de 6,5 pontos nesse site é digno de alguma atenção do público, embora não imprescindível de ser conferido). Enquanto o primeiro site é composto prioritariamente por críticos vinculados a grandes e variados portais de formação de opinião, o segundo é associado por um grupo de pessoas mais diversificado. Entre bons fundamentadores de ideias que elaboram resenhas bem fundamentadas gramaticalmente, há também milhares de avaliadores que expõem suas opiniões de forma mais calorosa e improvisada. Como também há muitas vezes a participação de membros que estão completamente desprovidos de argumentos sensatos ou de alguma representatividade. Mas tanto em um site, quanto no outro, todos tem em comum, o poder de influenciar de maneira positiva ou negativa a nota final de uma produção que está sendo avaliada. Sendo assim, se por um lado à crítica especializada que se expressou no Rotten Tomatoes odiou o resultado, pelas mais variadas razões, o público em geral que colabora com o IMDB foi tocado pela proposta de “Beleza Oculta”.  O que é compreensível, já que David Frankel entrega uma produção dramática bastante acessível ao público e adequada a desencadear muitas lágrimas enquanto ainda é capaz de propiciar alguma reflexão sobre algumas questões comuns da vida.

Mesmo que a trama fantasiosa criada por Loebb tenha suas falhas e desencadeie algum desagrado por sua forma simplista com que trata alguns assuntos delicados (mas há duas boas sacadas do roteiro que são reveladas em seu desfecho que são bastante inspiradas), algumas das atuações não sejam à altura dos nomes que compõem o elenco, David Frankel coloca todo o seu talento atrás das câmeras e entrega um produto seguro de seu propósito: o de ocasionar choro numa parcela considerável dos espectadores. Por isso, se “Beleza Oculta” não se aproxima de ser uma experiência cinematográfica arrebatadora a um selecionado grupo de espectadores, o resultado dessa produção ainda assim se mostra bastante deliciosa de se gastar o tempo.

Nota:  7/10
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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Crítica: A Caverna | Um Filme de Alfredo Montero (2014)


Quando cinco jovens de férias passam a explorar as belezas naturais de uma ilha de Formentera, o clima de descontração e festa é total nesse pequeno grupo. Mas quando um deles descobre a entrada de uma caverna misteriosa e todos decidem explorar o interior dessa descoberta, ninguém imagina o perigo ao qual estão se submetendo. Depois de algum tempo nessa aventura de exploração, não demora muito para perceberem que estão perdidos no labirinto de passagens estreitas e escuras da caverna. E o maior perigo surge quando despreparados, sem alimentos e esperança de encontrar a liberdade, a situação traz à tona o pior de cada um dos integrantes do grupo, à medida que o tempo vai passando e a saída não é encontrada. “A Caverna” (La Cueva, 2014) é uma produção de suspense e terror espanhola dirigida por Alfredo Montero. Escrita por Javier Gullón e Alfredo Montero, por aqui foi lançada na 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo após ter passado por alguns outros festivais pelo mundo (sua estreia foi no Festival de Cinema de Roterdã). Filmado no estilo Found-Footage (produção que simula um falso documentário que é gravado com câmeras pouco profissionais e pelos próprios atores), exibe boas ideias, uma atmosfera tensa e nervosa e recheia o desenvolvimento do material com cenas viscerais capazes causar grande desconforto.

A Caverna” não se difere em muito dos filmes típicos do formato Found-Footage que habitam o gênero do terror; “A Bruxa de Blair”, “[Rec]”, “Cloverfield” são bons exemplos de produções que encontraram sua redenção nesse formato controverso de filmagem. E como eles, “A Caverna” cumpre o seu papel de entreter o espectador oferecendo doses fortes de tensão e suspense sobre uma premissa simples explorada com foco. Seu desenvolvimento abre mão da inserção de ameaças externas de natureza desconhecida ou sobrenatural, e busca se prender apenas aos elementos já apresentados. Quando o espectador se dá conta que os jovens estão perdidos, o estado de imersão é imediato. O efeito é muito bem construído pela direção de Alfredo Montero, pelas atuações funcionais do elenco (há apenas algumas passagens que denotam alguma artificialidade nas atitudes e reações do grupo) e pelo ambiente onde se passa as gravações subterrâneas. Tudo é muito escuro, extremamente apertado e claustrofóbico, demonstrando o quanto hostil e difícil será para os jovens encontrarem a saída. O roteiro articula bem os aspectos das condições em que se encontram os jovens, como o fator do tempo que está contra eles (afinal de contas, água, a comida e o controle emocional estão se acabando na medida em que o tempo passa).

Há dois aspectos bastante fascinantes em “A Caverna”: Primeiro por sua capacidade de transportar o espectador para uma situação aterrorizante com facilidade. O realismo que o formato Found-Footage oferece, embora desagrade uma gama significativa de espectadores por suas características estéticas, confere um realismo impressionante. Em segundo, o filme não hesita em mostrar alguns aspectos sombrios da natureza humana quando coagido por uma situação extrema, pois segundo a visão do cineasta espanhol, é nessas circunstâncias que é possível ver aflorar o pior do ser humano. Embora essa produção não se mostre memorável, funciona bem ao que se propõe e detêm um nível de competência instigante.

Nota:  7/10
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